sábado, 21 de julho de 2012

Herculano Borges... A Vingança de Corisco



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A raiz mais antiga da história aponta para uma ascendência mais antiga pernambucana, que migrou para a Bahia no final do século XVIII, aparecendo a família em 1812, em Monte Santo, na Bahia, com Rafael dos Anjos.
Este era proprietário de uma posse de terra na fazenda Abóbora, onde, mais tarde, se desenvolveu o cenário de um embate em que morreu o cangaceiro Mergulhão.
A partir daí, a família se espalhou rumo  Uauá e Vila Nova da Rainha, com Joaquim Cardoso da Silva Matos, filho de Rafael dos Anjos, sendo avô de Francisco Borges.
Entre seus descendentes destacaram-se os Borges de Sá, de Uauá, dentre os quais emergiram sete prefeitos dessa cidade.
Entretanto, o filho de Francisco cujo nome assumiu maior significado na História do Cangaço foi Herculano Borges, nascido em Uauá, cerca de 1881.
Herculano Borges, que se casou com Marta Moraes Salles, mais conhecida como a dona Ossanta.
Foi este Herculano Borges que, em 1931, aos cinquenta anos de idade, foi trucidado por Corisco...
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2 de outubro de 1931, no “Diario de Noticias”

.Um negociante cortado em postas!

Corisco e seu grupo torturaram uma ex–autoridade policial

GUERRA IMPLACAVEL AOS BANDOLEIROS ATÉ QUE O SERTÃO SE LIBERTE DA PRAGA SINISTRA

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Santa Rosa é um districto de paz do ex–municipio de Jaguarary, ultimamente annexado a Bomfim, de onde dista cerca de 12 léguas. Não é um lugar prospero: caracteriza–o o abandono em que jazem as localidades do Nordeste, onde apenas as feiras conseguem offerecerum pouco de vida, de movimento, de intensidade commercial, um dia em cada semana.
Em Santa Rosa residia o sr. Herculano Borges, sobrinho do coronel João Borges de Sá, de Uauá. Negociava com relativo exito, vivendo vida corrente e tranquilla com sua mulher e filhas. Era estimado e possuia amigos. Nada mais que isso desejava, para se considerar feliz.

NO “INDEX” DO BANDIDO
Um dia, indicaram–no para as funcções de subdelegado local. Relutou elle em aceitar, porque não era politico: disseram–lhe que esse seria um relevante serviço que ia prestar ao Governo e á população local, cooperando na campanha empenhada contra Lampeão.
Herculano Borges pensou melhor e aceitou o cargo; no exercicio do mesmo, fez–se uma autoridade util áquella campanha, trazendo o sicario apertado e, por isso mesmo, caiu–lhe no ról das pessôas condemnadas.
Além disto, o seu tio coronel João Borges de Sá é velho inimigo de Virgolino, tendo–o mettido, certa feita, na cadeia, em Uauá, quando elle era, apenas, tropeiro de Delmiro Gouveia.

PRIMEIRO, OS BENS INCENDIADOS
Lampeão, chefe dos bandidos, e como tal tido e obedecido por elles, conseguiu, ha tempos burlando a vigilancia da autoridade de Santa Rosa, penetrar, de surpresa, nessa localidade.
Herculano mal teve tempo de fugir com a familia, numa inevitavel viagem desabalada, vindo a fixar residencia, com suas cinco filhas menores, na cidade de Bomfim. Mas perdeu quanto possuia. O grupo sicario quebrou, espatifou, os moveis do seu perseguidor policial; na loja que elle possuia, praticou um saque de vandalos e depois, ateou fogo á casa com todo o “stock” nella existente.
Era o inicio da vingança.
Herculano experimentou, assim, o castigo de haver sido um homem de bem, que não compactuou com o crime, na sua vida de cidadão. Ficou residindo em Bomfim, não sem ir, de vez em quando, a Santa Rosa, menos para enfrentar o risco ou matar saudades, que por irrecusavel necessidade de alli commerciar, na feira local, ás sextas feiras, como negociante ambulante.

A ESMAGADORA SURPRESA!
No dia 19, penultimo sabbado de setembro, Herculano Borges, feita a feira na vespera, regressava, pela estrada quente, interminavel, a serpentear entre capoeiras sombrias, descampados nús de vegetação, a subir encostas fatigantes e a descer serrotes. Vinha montado e trazia suas mercadorias no lombo da burrama docil á voz do “pagem”...
Fazia calor e Herculano, cansado da viagem, fez uma parada, Apeou. Perto havia uma “cacimba”. Para ella encaminhou–se e, descuidado, pensando certamente na familia, que ia revêr satisfeito, abaixou–se mitigando, no fio claro dagua corrente, a sêde que lhe seccava a garganta.
Surpreendeu–o nessa posição o tropel de cavalleiros inesperados. Elle voltou–se, na convicção de que talvez se tratasse de algum caixeiro viajante. Mas, não; a divida durou o tempo de um relampago, porque alguem, do grupo, despertava–o para a negra realidade:
– Cel. Herculano, levnte–se para morrer, que vocês está com “Corisco” pela frente”

VERDADEIRO SUPPLICIO
Era, realmente, aquelle grupo composto do emulo de Lampeão, e de mais 9 cáibras, que detinham o infeliz sertanejo.
O crime deste era não ser “coiteiro”, era o de haver servido á sociedade contra salteadores e assassinos; era o de haver cumprido com o dever que assiste a todos os sertanejos, nessa luta contra os bandidos de Lampeão.
Não descreveremos o supplicio pelo qual padeceu, como um martyr christão, o sr. Herculano Borges.
Amarraram–no.
Cortaram–lhe os braços.
Cortaram–lhe os pes.
Degollaram–no.
E, esquartejado, feito em postas, os pés sangrentos dentro das botinas, foram seus restos mortaes enfiados em estacas, como demonstrações do quanto é perverso o odio da horda de Lampeão...

PELO SANGUE DERRAMADO, GUERRA AOS SICARIOS!
O doloroso fim desse sertanejo deve inspirar ás populações do Nordéste um compromisso sagrado – o de lutar, ao lado da Força Publica, contra os sicarios.
Pelo sangue que elles teem derramado das victimas que surpreendem, o de prestigiar os perseguidores da gente de Lampeão, dennunciando–lhes os seus “coiteiros”.
É proposito do Governo do Estado não dar tréguas a Lampeão, lançando em pratica um traçado modo de campanha que não póde ser divulgado, mas que deve ser facilitado.
O Capitão Facó espera, conforme ainda hoje declarou ao DIARIO DE NOTICIAS, que os sertanejos favoreçam as tropas volantes com um ambiente de facilidações, contando para isso com o auxilio da imprensa. É o que fazemos – apontando esse novo barbaro crime á execração geral!
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Aparece em Felippe de Castro (1975), a narrativa do início do problema:
Corisco foi para a cidade de Bonfim, corrido, afastando-se para sempre da região de Glória e Pedra de Delmiro. Na nova cidade que passou a residir iniciou vida nova, negociando com bugingangas na feira - era camelô - aos dezessete anos.
Certo dia, Herculano Borges, delegado de polícia daquela cidade, homem, segundo conceito popular, de máus bófes, recebe de um dos fiscais da feira uma queixa contra o camelô, acusando-o de sonegação de imposto, naquela época, cinqüenta réis de ocupação do solo. Apresentado ao delegado, este indaga-lhe o motivo da protestada recusa, tendo o acusado se justificado, alegando já ter pago a outro fiscal, por isso que a acusação era injusta. Não se conformando, todavia, o delegado, mandou recolhê-lo ao xadrez debaixo d eimpropérios ofensivos, culminando por agredi-lo com um pontapé nas nádegas. Sabe-se que no percurso da feira ao quartel, onde ficava o xadrez, os soldados da escolta espancaram o rapaz que, raivoso com o ato injusto e violento, prometeu vingar-se declarando, em presença do próprio delegado, chorando de ódio: “Quando eu saí daqui o sinhô me paga seu Herculano”. Só depois de vinte e quatro horas soltaram-no.
Desesperado com os maus tratos que lhe deram, injustamente, resolveu vender o que tinha e com o produto desse negócio comprou um rifle e internou-se nas caatingas.”
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Depoimento de Raimundo Gonçalves, nascido em 1926, em Jaguarari:
"Eu tinha catorze anos, quando o Arthur Gonçalves me contou tudo como foi, e ainda sei dos detalhes... Tudo, no início, ia bem aqui, em Jaguarari... O Corisco e o Arvoredo viviam aqui na maior tranquilidade... Lidavam com comércio. Eram só dois bons rapazes que eram amigos... Não tinham nada demais e não mexiam com ninguém... Moravam ali numa ponta de rua... Eram tempos muito diferentes de agora... Qualquer coisa diferente e vinha lá o “vou te matar”... A polícia era um horror... Agora, é uma tranquilidade... Os policiais são treinados e educados, mas, naquele tempo, eram os delegados muitos recrutas novos... e que se faziam autoridade sem recursos... O Herculano Borges, não sei porque bem, pegou o Corisco e prendeu e bateu mesmo nele... Sei que foi muito ruim... E o Corisco passou as coisas dele e caiu no mato... Virou cangaceiro... Muitos anos depois, ia lá Herculano, que começou a fazer mascate, a comerciar, pelos caminhos, lá pelas bandas de Santa Rosa de Lima... Saindo pouco depois do Pilar, tomando a estrada... Acontece que aqueles que são jovens mudam muito... Nós, os mais velhos, mudamos pouco... E ele deu lá o azar dele, e acabou topando justamente com o Corisco no caminho, na altura da Fazenda Bom Despacho.
Corisco perguntou se ele não era o Herculano Borges... e ele confirmou... De Jaguarari? E ele confirmou também... E Corisco prendeu Herculano... Passou a noite já amarrado crucificado, assim, com os braços abertos... No outro dia, pela manhã, Corisco tirou as unhas uma a uma... Depois foi tirando parte por parte dos dedos... A pele todinha... Herculano Borges sofreu uma morte horrorosa... No final, estava dividido em um monte de pedaços...
Depois foram lá e cataram tudo... Colocaram num saco... Ele chegou aqui foi todo fatiado, espedaçado, dentro de um saco...
Enterraram os pedaços aqui, no cemitério de Jaguarari...
Coisa mais triste..."
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Depoimento de Bertolino Evangelista da Silva, em 1995, aos 89 anos, que aparece em Oleone Fontes (1996):
"Corisco e Arvoredo, cansados do cangaço, decidiram abandonar o bando de Lampião. Em Santa Rosa de Lima tornaram–se protegidos de fazendeiro com quem trabalharam.
Herculano, sub–delegado no povoado, ao saber que antigos bandoleiros ali viviam, resolveu enquadrá–los denunciando-os ao delegado de Polícia de Jaguarari. Presos, tempos depois ambos fogem e recaem no grupo de Lampião.
O sub–delegado é jurado de morte.
Ao deixar o cargo, Herculano volta a realizar negócios em fazendas, povoados, arraiais, cidades, tangerino de tropa de burros. Mercadeja tecidos. Cauteloso, procura cercar–se de segurança antes de adentrar esta ou aquela estrada.
Há indicios de o encontro entre o comerciante e os bandidos ter sido casual, segundo podera o depoente.
Assim Corisco deu a entender. O grupo estava estacionado nas proximidades de cacimba e procedia da fazenda Cachoeira. Herculano e o arrieiro vinham do povoado Abóbora, na direção de Santa Rosa de Lima. Também procuravam água na mesma cacimba. e dão com o bando.
Herculano, reconhecida, fica sob as ordens do Diabo Louro.
Os cabras amrram–no. Dormem no mato. Na manhã seguinte o almocreve é levado e amarrado de cordas até o terreiro da casa em que vivia a família de Bertolino e seus pais, Quintino Alves da Silva e Ana Evangelista da Silva. O comerciante era velho amigo e frequentador daquela casa acolhedora.
Próximo ao batente do casarão, Corisco apontou para o sub–delegado manietado e indagou de Bertolino se o conhecia. Em seguida o Diabo Louro roumpeu emlamúrias. Fora obrigado a ingressar naquela vida por culpa do tropeiro que o escarreirara de Santa Rosa de Lima, correria que terminou em senhor do Bonfim. Naquele dia, por acaso, quiseram os fados que ambos se reencontrassem.
Friamente, Corisco saca do revólver e detona duas balas, uma no olho, outra no pescoço do comerciante. Dois cabras são intimados a esquartejar o cadáver, ainda quente, vários pedaços distribuídos pelas estacas da cerca.
Ainda segundo seo Bertolino, Herculano não suplicou uma só vez que lhe poupassem a vida. Se o fez deve ter sido durante o período em que esteve nas mãos dos bandidos, na noite anterior.
Os restos mortais, em pedaços, foram enterrados no quintal, após a retirada dos cangaceiros. Ainda hoje se pode observar o que sobrou da tosca cruz, cujas hastes, carcomidas, foram colocadas na posição original, para as fotos.
A viúva, D. Ossunta, passado algum tempo, foi à fazenda Bom Despacho, recolheu os despojos do marido, levou–o conigo para lhe dar sepultura digna."
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Depoimento de João Alves Guimarães, nascido a 04 de agosto de 1917, em Abóbora, então pertencente ao Município de Jaguarary, atualmente pertencente a Juazeiro:
"O Herculano Borges foi aprisionado na roça do meu pai, na Fazenda Bom Despacho... O Corisco foi muito cruel... Meu pai viu tudo e me contou... Ele pegou e amarrou o Herculano de jeito passando as cordas pelos pulsos, não em volta, mas por dentro... Furou a carne para passar a corda entre os ossos... Ele pegou o meu pai e colocou ali junto. Amarrou o Herculano num pé de pau pra ele ficar ai a noite inteira... Corisco obrigou o meu pai a ficar olhando para ele, vigiando... Se o meu pai não ficasse cuidando, ele depois desgraçava era com tudo do meu pai... No outro dia, botou o Herculano pendurado com os pés pra cima, sem a roupa... Começou a ir tirando a pele, bem devagarzinho... tirando e tirando... Foi tirando as coisas... Quando ele morreu, primeiro abriram que nem bode... Esquertejaram o Herculano Borges... E Corisco colocou os pedaços assim, espalhados, pelos pé de pau e cerca... Foram dez pedaços... O meu pai que depois juntou e enterrou... Depois levaram pra Jaguarari... Dez pedaços..."
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Dona Ossanta, viúva de Herculano Borges, só viria a falecer em Serrinha, em 1994. (Borges, 1996)
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3 comentários:

  1. Me despertou curiosidade ler esta matéria. Sou paraense e descendente de nordestino. Neto de Manoel Herculano vindo da Paraíba em 1940. Escrevi uma monografia sobre sua vida que findou no Pará (Belterra, depois de ter trabalhado na seringa no Acre. Meu bisavô era, também, Herculano. Dono de engenho e fazenda em Lagoa Grande PB. Parabéns Rubens! pela postagem.

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  2. A minha avó era do Juazeiro no Ceará e era irmã do pai de Corisco, o nome da minha avó completo era Maria Luzia da Conceição, a minha mãe e uma tia minha estão vivo ainda qualquer coisa pode falar comigo que a gente tem mais informação
    Um forte abraço.

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  3. A minha avó era do Juazeiro no Ceará e era irmã do pai de Corisco, o nome da minha avó completo era Maria Luzia da Conceição, a minha mãe e uma tia minha estão vivo ainda qualquer coisa pode falar comigo que a gente tem mais informação
    Um forte abraço.

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