sábado, 21 de julho de 2012

Herculano Borges... A Vingança de Corisco



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A raiz mais antiga da história aponta para uma ascendência mais antiga pernambucana, que migrou para a Bahia no final do século XVIII, aparecendo a família em 1812, em Monte Santo, na Bahia, com Rafael dos Anjos.
Este era proprietário de uma posse de terra na fazenda Abóbora, onde, mais tarde, se desenvolveu o cenário de um embate em que morreu o cangaceiro Mergulhão.
A partir daí, a família se espalhou rumo  Uauá e Vila Nova da Rainha, com Joaquim Cardoso da Silva Matos, filho de Rafael dos Anjos, sendo avô de Francisco Borges.
Entre seus descendentes destacaram-se os Borges de Sá, de Uauá, dentre os quais emergiram sete prefeitos dessa cidade.
Entretanto, o filho de Francisco cujo nome assumiu maior significado na História do Cangaço foi Herculano Borges, nascido em Uauá, cerca de 1881.
Herculano Borges, que se casou com Marta Moraes Salles, mais conhecida como a dona Ossanta.
Foi este Herculano Borges que, em 1931, aos cinquenta anos de idade, foi trucidado por Corisco...
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2 de outubro de 1931, no “Diario de Noticias”

.Um negociante cortado em postas!

Corisco e seu grupo torturaram uma ex–autoridade policial

GUERRA IMPLACAVEL AOS BANDOLEIROS ATÉ QUE O SERTÃO SE LIBERTE DA PRAGA SINISTRA

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Santa Rosa é um districto de paz do ex–municipio de Jaguarary, ultimamente annexado a Bomfim, de onde dista cerca de 12 léguas. Não é um lugar prospero: caracteriza–o o abandono em que jazem as localidades do Nordeste, onde apenas as feiras conseguem offerecerum pouco de vida, de movimento, de intensidade commercial, um dia em cada semana.
Em Santa Rosa residia o sr. Herculano Borges, sobrinho do coronel João Borges de Sá, de Uauá. Negociava com relativo exito, vivendo vida corrente e tranquilla com sua mulher e filhas. Era estimado e possuia amigos. Nada mais que isso desejava, para se considerar feliz.

NO “INDEX” DO BANDIDO
Um dia, indicaram–no para as funcções de subdelegado local. Relutou elle em aceitar, porque não era politico: disseram–lhe que esse seria um relevante serviço que ia prestar ao Governo e á população local, cooperando na campanha empenhada contra Lampeão.
Herculano Borges pensou melhor e aceitou o cargo; no exercicio do mesmo, fez–se uma autoridade util áquella campanha, trazendo o sicario apertado e, por isso mesmo, caiu–lhe no ról das pessôas condemnadas.
Além disto, o seu tio coronel João Borges de Sá é velho inimigo de Virgolino, tendo–o mettido, certa feita, na cadeia, em Uauá, quando elle era, apenas, tropeiro de Delmiro Gouveia.

PRIMEIRO, OS BENS INCENDIADOS
Lampeão, chefe dos bandidos, e como tal tido e obedecido por elles, conseguiu, ha tempos burlando a vigilancia da autoridade de Santa Rosa, penetrar, de surpresa, nessa localidade.
Herculano mal teve tempo de fugir com a familia, numa inevitavel viagem desabalada, vindo a fixar residencia, com suas cinco filhas menores, na cidade de Bomfim. Mas perdeu quanto possuia. O grupo sicario quebrou, espatifou, os moveis do seu perseguidor policial; na loja que elle possuia, praticou um saque de vandalos e depois, ateou fogo á casa com todo o “stock” nella existente.
Era o inicio da vingança.
Herculano experimentou, assim, o castigo de haver sido um homem de bem, que não compactuou com o crime, na sua vida de cidadão. Ficou residindo em Bomfim, não sem ir, de vez em quando, a Santa Rosa, menos para enfrentar o risco ou matar saudades, que por irrecusavel necessidade de alli commerciar, na feira local, ás sextas feiras, como negociante ambulante.

A ESMAGADORA SURPRESA!
No dia 19, penultimo sabbado de setembro, Herculano Borges, feita a feira na vespera, regressava, pela estrada quente, interminavel, a serpentear entre capoeiras sombrias, descampados nús de vegetação, a subir encostas fatigantes e a descer serrotes. Vinha montado e trazia suas mercadorias no lombo da burrama docil á voz do “pagem”...
Fazia calor e Herculano, cansado da viagem, fez uma parada, Apeou. Perto havia uma “cacimba”. Para ella encaminhou–se e, descuidado, pensando certamente na familia, que ia revêr satisfeito, abaixou–se mitigando, no fio claro dagua corrente, a sêde que lhe seccava a garganta.
Surpreendeu–o nessa posição o tropel de cavalleiros inesperados. Elle voltou–se, na convicção de que talvez se tratasse de algum caixeiro viajante. Mas, não; a divida durou o tempo de um relampago, porque alguem, do grupo, despertava–o para a negra realidade:
– Cel. Herculano, levnte–se para morrer, que vocês está com “Corisco” pela frente”

VERDADEIRO SUPPLICIO
Era, realmente, aquelle grupo composto do emulo de Lampeão, e de mais 9 cáibras, que detinham o infeliz sertanejo.
O crime deste era não ser “coiteiro”, era o de haver servido á sociedade contra salteadores e assassinos; era o de haver cumprido com o dever que assiste a todos os sertanejos, nessa luta contra os bandidos de Lampeão.
Não descreveremos o supplicio pelo qual padeceu, como um martyr christão, o sr. Herculano Borges.
Amarraram–no.
Cortaram–lhe os braços.
Cortaram–lhe os pes.
Degollaram–no.
E, esquartejado, feito em postas, os pés sangrentos dentro das botinas, foram seus restos mortaes enfiados em estacas, como demonstrações do quanto é perverso o odio da horda de Lampeão...

PELO SANGUE DERRAMADO, GUERRA AOS SICARIOS!
O doloroso fim desse sertanejo deve inspirar ás populações do Nordéste um compromisso sagrado – o de lutar, ao lado da Força Publica, contra os sicarios.
Pelo sangue que elles teem derramado das victimas que surpreendem, o de prestigiar os perseguidores da gente de Lampeão, dennunciando–lhes os seus “coiteiros”.
É proposito do Governo do Estado não dar tréguas a Lampeão, lançando em pratica um traçado modo de campanha que não póde ser divulgado, mas que deve ser facilitado.
O Capitão Facó espera, conforme ainda hoje declarou ao DIARIO DE NOTICIAS, que os sertanejos favoreçam as tropas volantes com um ambiente de facilidações, contando para isso com o auxilio da imprensa. É o que fazemos – apontando esse novo barbaro crime á execração geral!
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Aparece em Felippe de Castro (1975), a narrativa do início do problema:
Corisco foi para a cidade de Bonfim, corrido, afastando-se para sempre da região de Glória e Pedra de Delmiro. Na nova cidade que passou a residir iniciou vida nova, negociando com bugingangas na feira - era camelô - aos dezessete anos.
Certo dia, Herculano Borges, delegado de polícia daquela cidade, homem, segundo conceito popular, de máus bófes, recebe de um dos fiscais da feira uma queixa contra o camelô, acusando-o de sonegação de imposto, naquela época, cinqüenta réis de ocupação do solo. Apresentado ao delegado, este indaga-lhe o motivo da protestada recusa, tendo o acusado se justificado, alegando já ter pago a outro fiscal, por isso que a acusação era injusta. Não se conformando, todavia, o delegado, mandou recolhê-lo ao xadrez debaixo d eimpropérios ofensivos, culminando por agredi-lo com um pontapé nas nádegas. Sabe-se que no percurso da feira ao quartel, onde ficava o xadrez, os soldados da escolta espancaram o rapaz que, raivoso com o ato injusto e violento, prometeu vingar-se declarando, em presença do próprio delegado, chorando de ódio: “Quando eu saí daqui o sinhô me paga seu Herculano”. Só depois de vinte e quatro horas soltaram-no.
Desesperado com os maus tratos que lhe deram, injustamente, resolveu vender o que tinha e com o produto desse negócio comprou um rifle e internou-se nas caatingas.”
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Depoimento de Raimundo Gonçalves, nascido em 1926, em Jaguarari:
"Eu tinha catorze anos, quando o Arthur Gonçalves me contou tudo como foi, e ainda sei dos detalhes... Tudo, no início, ia bem aqui, em Jaguarari... O Corisco e o Arvoredo viviam aqui na maior tranquilidade... Lidavam com comércio. Eram só dois bons rapazes que eram amigos... Não tinham nada demais e não mexiam com ninguém... Moravam ali numa ponta de rua... Eram tempos muito diferentes de agora... Qualquer coisa diferente e vinha lá o “vou te matar”... A polícia era um horror... Agora, é uma tranquilidade... Os policiais são treinados e educados, mas, naquele tempo, eram os delegados muitos recrutas novos... e que se faziam autoridade sem recursos... O Herculano Borges, não sei porque bem, pegou o Corisco e prendeu e bateu mesmo nele... Sei que foi muito ruim... E o Corisco passou as coisas dele e caiu no mato... Virou cangaceiro... Muitos anos depois, ia lá Herculano, que começou a fazer mascate, a comerciar, pelos caminhos, lá pelas bandas de Santa Rosa de Lima... Saindo pouco depois do Pilar, tomando a estrada... Acontece que aqueles que são jovens mudam muito... Nós, os mais velhos, mudamos pouco... E ele deu lá o azar dele, e acabou topando justamente com o Corisco no caminho, na altura da Fazenda Bom Despacho.
Corisco perguntou se ele não era o Herculano Borges... e ele confirmou... De Jaguarari? E ele confirmou também... E Corisco prendeu Herculano... Passou a noite já amarrado crucificado, assim, com os braços abertos... No outro dia, pela manhã, Corisco tirou as unhas uma a uma... Depois foi tirando parte por parte dos dedos... A pele todinha... Herculano Borges sofreu uma morte horrorosa... No final, estava dividido em um monte de pedaços...
Depois foram lá e cataram tudo... Colocaram num saco... Ele chegou aqui foi todo fatiado, espedaçado, dentro de um saco...
Enterraram os pedaços aqui, no cemitério de Jaguarari...
Coisa mais triste..."
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Depoimento de Bertolino Evangelista da Silva, em 1995, aos 89 anos, que aparece em Oleone Fontes (1996):
"Corisco e Arvoredo, cansados do cangaço, decidiram abandonar o bando de Lampião. Em Santa Rosa de Lima tornaram–se protegidos de fazendeiro com quem trabalharam.
Herculano, sub–delegado no povoado, ao saber que antigos bandoleiros ali viviam, resolveu enquadrá–los denunciando-os ao delegado de Polícia de Jaguarari. Presos, tempos depois ambos fogem e recaem no grupo de Lampião.
O sub–delegado é jurado de morte.
Ao deixar o cargo, Herculano volta a realizar negócios em fazendas, povoados, arraiais, cidades, tangerino de tropa de burros. Mercadeja tecidos. Cauteloso, procura cercar–se de segurança antes de adentrar esta ou aquela estrada.
Há indicios de o encontro entre o comerciante e os bandidos ter sido casual, segundo podera o depoente.
Assim Corisco deu a entender. O grupo estava estacionado nas proximidades de cacimba e procedia da fazenda Cachoeira. Herculano e o arrieiro vinham do povoado Abóbora, na direção de Santa Rosa de Lima. Também procuravam água na mesma cacimba. e dão com o bando.
Herculano, reconhecida, fica sob as ordens do Diabo Louro.
Os cabras amrram–no. Dormem no mato. Na manhã seguinte o almocreve é levado e amarrado de cordas até o terreiro da casa em que vivia a família de Bertolino e seus pais, Quintino Alves da Silva e Ana Evangelista da Silva. O comerciante era velho amigo e frequentador daquela casa acolhedora.
Próximo ao batente do casarão, Corisco apontou para o sub–delegado manietado e indagou de Bertolino se o conhecia. Em seguida o Diabo Louro roumpeu emlamúrias. Fora obrigado a ingressar naquela vida por culpa do tropeiro que o escarreirara de Santa Rosa de Lima, correria que terminou em senhor do Bonfim. Naquele dia, por acaso, quiseram os fados que ambos se reencontrassem.
Friamente, Corisco saca do revólver e detona duas balas, uma no olho, outra no pescoço do comerciante. Dois cabras são intimados a esquartejar o cadáver, ainda quente, vários pedaços distribuídos pelas estacas da cerca.
Ainda segundo seo Bertolino, Herculano não suplicou uma só vez que lhe poupassem a vida. Se o fez deve ter sido durante o período em que esteve nas mãos dos bandidos, na noite anterior.
Os restos mortais, em pedaços, foram enterrados no quintal, após a retirada dos cangaceiros. Ainda hoje se pode observar o que sobrou da tosca cruz, cujas hastes, carcomidas, foram colocadas na posição original, para as fotos.
A viúva, D. Ossunta, passado algum tempo, foi à fazenda Bom Despacho, recolheu os despojos do marido, levou–o conigo para lhe dar sepultura digna."
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Depoimento de João Alves Guimarães, nascido a 04 de agosto de 1917, em Abóbora, então pertencente ao Município de Jaguarary, atualmente pertencente a Juazeiro:
"O Herculano Borges foi aprisionado na roça do meu pai, na Fazenda Bom Despacho... O Corisco foi muito cruel... Meu pai viu tudo e me contou... Ele pegou e amarrou o Herculano de jeito passando as cordas pelos pulsos, não em volta, mas por dentro... Furou a carne para passar a corda entre os ossos... Ele pegou o meu pai e colocou ali junto. Amarrou o Herculano num pé de pau pra ele ficar ai a noite inteira... Corisco obrigou o meu pai a ficar olhando para ele, vigiando... Se o meu pai não ficasse cuidando, ele depois desgraçava era com tudo do meu pai... No outro dia, botou o Herculano pendurado com os pés pra cima, sem a roupa... Começou a ir tirando a pele, bem devagarzinho... tirando e tirando... Foi tirando as coisas... Quando ele morreu, primeiro abriram que nem bode... Esquertejaram o Herculano Borges... E Corisco colocou os pedaços assim, espalhados, pelos pé de pau e cerca... Foram dez pedaços... O meu pai que depois juntou e enterrou... Depois levaram pra Jaguarari... Dez pedaços..."
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Dona Ossanta, viúva de Herculano Borges, só viria a falecer em Serrinha, em 1994. (Borges, 1996)
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Para utilizar as matérias deste blog, atentar para:
Como citar
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quinta-feira, 19 de julho de 2012

24 de dezembro de 1938, no “Estado da Bahia”


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24 de dezembro de 1938, no “Estado da Bahia”:
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MAIS DOIS ASSECLAS DO GRUPO DE LAMPEÃO ENTREGAM–SE Á POLICIA
Corisco, só depois de morto
Chegaram hontem, no trem de Sergipe, precisamente ás 17 horas e 50 minutos, mais dois bandidos pertencentes ao grupo de José sereno. escoltados por um cabo e dois soldados, os ex–cangaceiros saltaram na gare da Calçada, onde foram rodeados de curiosos, até que chegou o carro da policia e os conduziu para a Delegacia Auxiliar.

CAJAZEIRA E DIFFERENTE
Os bandidos chemam–se José Francisco dos Santos, mais conhecido pela alcunha de “Cajazeira” e Manoel Nascimento, mais conhecido pela alcunha de “Differente”, tendo se entregado á Policia Bahiana na serra Negra, perto do Estado de Sergipe. O primeiro tem apenas 21 annos de idade, e, segundo suas declarações, entrou para o bando em vista de ter sido perseguido pela policia de Sergipe, por causa da accusação de ser coiteiro.

A ILLUSÃO DO CANGAÇO
“Differente” entrou para o grupo de “Zé Bahiano”, contra 23 primaveras, tendo dois annos de cangaço e lutas. Quando Zé Bahiano foi victimado, elle passou para o bando de “José Sereno”, onde até o momento de se entregar continuou a sua vida de assassinios e assaltos.
Contou–nos tambem que começou a exercer esta vida após “Canario” tê–lo convidado para entrar no bando com promessas cheias de vantagens. Porém, agora – acrescentou – resolveu entregar–se pois o cangaço nada mais é do que uma vida de illusões e perseguições.

“CORISCO” SÓ DEPOIS DE MORTO
“Corisco”, o perigoso “Diabo Louro”, que promettera entregar–se, mudou de intenções. Tambem “Angelo Roque” outro temivel cangaceiro e chefe de 4 homens, pretendeu entregar–se, mas o “Diabo Louro” o convenceu do contrario – declarou “Cajazeira”, que fala como uma victrola no seu falar arrastado de sertanejo.

9 BANDIDOS APENAS
Dois grupos ainda perambulam pelos sertões bahiano e sergipano, um commandado pelo “Diabo Louro”, sendo composto de 4 homens e outro commandado por Angelo Roque, com 3 homens.

MUNIÇÃO DE SERGIPE
Continuando a falar, os bandoleiros declararam que recebiam toda a munição de Sergipe e que lá eram muito pouco perseguidos. Ao contrario se verificava no sertão bahiano, onde nós recebiamos tiros em todos os logares por onde passavamos. Demos poucos combates com a Policia Bahiana, mas foram combates que deixaram recordaçõe, pois nelles vimos abatidos innumeros dos nossos.

NOTAS SOLTAS
Os ex–cangaceiros entregaram–se ao sr. João Maria, irmão do Coronel Liberato de Mattos, o qual não se descuidou e logo ao seu irmão deus sciencia do facto. O coronel enviou uma escolta que os conduziu a esta Capital
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Com a prisão destes dois bandidos, o cangaço soffreu mais um golpe que o fez diminuir a intensidade e actividade.
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24 de dezembro de 1938, no “A Tarde”:
DESISTIRAM DO CANGAÇO

 Pelo trem nocturno de Sergipe, chegaram, hontem, ás 17 horas e 53 minutos, á esta capital, os bandidos “Differente” e “Cajazeiras”, que se apresentaram á policia, em Paripiranga.
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segunda-feira, 16 de julho de 2012

Os Assombros de Itiúba - Líderes da defesa


A figura destacada de Aristides Simões de Freitas paira como a do grande líder na defesa de Itiúba, durante as crises desencadeadas pelas passagens dos cangaceiros no seu em-torno.

Entretanto, cabe destacar outras lideranças locais que adentraram a estruturação da defesa secundando-o com eficiência.
Dentre estes, alguns merecem citação, tendo inclusive assumido armas e seguido para as frentes, coordenando os jagunços nas duas trincheiras principais, a da Calçada de Pedra e a da Cambeca.
Um deles foi Belarmino Pinto, que veio a se tornar o primeiro prefeito, quando Itiúba se emancipou.
Belarmino Pinto

Outro foi seu irmão Benedito Pinto.

Benedito Pinto

Sítio da trincheira da Cambeca - A cidade aparece ao fundo

Sítio da trincheira da Calçada de Pedra

Belarmino Pinto, já prefeito, acompanhado de José Cruz e Ramiro Pimentel, cercados por populares.
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Como citar
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Os Assombros de Itiúba - Depoimento diversos

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1931
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Depoimento de Isabel, do Maté:
"Quando Lampião chegou no Maté foi com uma turma. Vinham montados e na carreira. Estavam sentados fora da casa do Teófilo e Piroca. Eles levantaram para correr e Lampião falou:
- Não corra! Senão eu atiro!
Perguntou ao Teófilo pelas montadas que tinha e ele respondeu:
- Só tenho umas é-é-é-guas.
Eles arremedaram Teófilo:
- Umas é-é-é-guas.
Lampião pediu água para beber a Joaquina, que estava mexendo uma comida no fogo, em uma cozinha que ficava fora da casa. Mas ela demorou para pegar a água, porque estava nervosa e trêmula. Mas ele achou que ela tinha colocado porcaria na água, e não bebeu. E jogou fora. Lampião perguntou a Joaquina o que tinha no fogo. E ela respondeu:
– Uma comida para uma doente.
Lampião arremedou-a e repetiu o que ela falou, pois Joaquina falava um pouco fanhosa.
A passagem dele no Maté já foi à noite. Ele já estava vindo da Varzinha e foi nessa passagem que ele entrou na casa de Mariinha e deu umas chibatadas nela. Dizem que ela também era gaga e quando Lampião lhe batia, ela dizia:
- Ba-ba-te, diabo!
O povo disse que ele já vinha do Umbuzeiro... Existia muita mentira. Uma época disseram que ele estava atacando Itiúba e estava uma guerra danada.
Diziam que Lampião não fazia muita perversidade. Perversos eram os seus cangaceiros. Há uma história que ele chegou em uma casa ai pra cima. Tinha alguém assobiando e Lampião colocou a pessoa para assobiar a noite inteira para os cangaceiros dançar. Quando amanheceu a pessoa estava com a boca inchada...
Em uma casa, para o lado da Pedra Vermelha, município de Cansanção, pediu para a mulher cozinhar umas galinhas para eles comer. Enquanto comiam, um dos cangaceiros reclamou que a comida estava sem sal. Lampião pediu à mulher que trouxesse um quilo de sal e fez o cabra comer todo.”
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Depoimento de Pedro José de Oliveira, o Pedro Cajá:
"Nesse tempo, eu tinha catorze ou dezesseis anos...
Nesse dia, Lampião passou no Poço do Cachorro...
Eu ia subindo para a Cajá e o local onde eu me encontrava era alto.
E vi muitas pessoas montadas, outras não, ao redor da casa da Eleonor, no São Roque.
Não sabia o que estava acontecendo naquele momento... No outro dia, soube que Lampião esteve lá revirando a casa da Eleonor, procurando ouro e dinheiro. Mas não acharam nada e perderam uma palmatória com pregos, pois quem achou foi o Zé Lima, meu cunhado.
E o mesmo deu ela ao delegado Francisco Simões de Carvalho, avô do Augusto Castro.
O Agenor estava fazendo farinha em um lugar chamado Capoeira, na Fazenda do velho Tietre e, quando soube que Lampião estava nas redondezas, correram e deixou a farinha queimar..."
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Depoimento de Gabriel de Souza, do Povoado de Varzinha:
"Dizem que Lampião passou por fora da Varzinha. Ele ia passar aqui, mas foi Deus que o rapaz que vinha guiando levou para outro lugar. Eu e meus pais estávamos no terreiro da casa. Eram dezoito horas. Era menino. Tinha mais ou menos oito anos, mas me lembro. Ouvi uns tiros nessa serra, perto da Varzinha. Tem gente que o viu. Passou na casa da Canuto Mariinha, onde deu umas chibatadas nela. Aconteceu muitas vezes de ter notícias dele. Quando a conversa saía que ele estava na região nós corríamos para uma rocinha e íamos nos esconder lá. Estávamos sempre assustados. A gente dormia debaixo do pé de juazeiro ou no pé do lajedo. Não acendíamos nem a luz do candeeiro. Falavam que ele andava em Jenipapo, Jabucunã. Em Jabucunã um rapaz tinha um bar e Lampião passou por lá para beber junto com seus cangaceiros. Começaram a beber e os cangaceiros queriam que o dono do bar bebesse. Mas ele não quis. E um dos bandidos disse:
- Agora beba! Se você não beber, você morre.
Mas Lampião pediu que deixasse o rapaz em paz e fez uma proposta para ele:
- Quer se juntar ao nosso bando?
– Não posso. Tenho uma velha mãe que cuido e sustento.
– Resolva, porque nos quinze dias eu volto.
Foram embora, mas o rapaz, com medo que lhes fizessem mal, foi a Monte Santo e comprou uma arma boa. Alguns dias se passaram e o rapaz ficou de tocaia. Quando o bando ia passando ele conheceu o bandido que queria matá-lo no bar. Mirou e atirou na cabeça. Começaram a atirar no rapaz e ele caiu em uma bagaceira e escondeu-se. Eles olharam por ali e falaram que o cara era ruim. A seguir montaram e foram embora. Quando o rapaz viu a cascalheira, foi conferir e viu um cara morto.”
Depoimento de Sebastião José dos Santos, de 82 anos, de Itiúba:
Lampião não passou aqui, mas Volta Seca e mais alguns cangaceiros passaram no Sítio dos Meios... Atravessaram o campo de bola e o pontilhão, mas não passaram em nenhuma casa. Eu era rapaz e cortava lenha para as máquinas. Meu sonho mesmo era entrar para a volante para matar Lampião. Tinha quinze anos e meu pai não deixou. É que, se eu morresse sem matar ninguém, São Pedro ia perguntar:
- Matou alguém?
Quando eu dissesse que não ele diria:
- Então, você não pode entrar aqui!
Quando Azulão e Volta Seca passaram por Jacurici, todos abandonaram suas casas e foram dormir na casa do finado Antônio Mendes, que ficava dentro da mata. Só quem não fugiu foi eu, papai, mamãe e meu irmão. Meu pai disse:
- Daqui ninguém sai. Se tiver que morrer, morremos em casa."
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Depoimento de Ângelo Pereira:
"Lampião tinha me levado a força da Fazenda Urubu, por ser jovem e domador de animais bravos... E eu, mesmo sem ser cangaceiro, vivi no bando de Lampião seis meses e vi coisas de admirar...
Certa vez, ele dormiu numa fazenda onde hoje é povoado de Rômulo Campos. O casal tinha filhas lindas. Lampião, quando viu, pediu uma para o pai das moças... O pai respondeu que as filhas só sairiam de perto dele casadas. E Lampião respondeu que estava certo... Ele, então, pediu ao dono da casa que colocasse suas filhas em um quarto e armasse a rede na porta da camarinha. Caso algum de seus cangaceiros tivesse a intenção de ir até o quarto, ele mesmo, Lampião, tomaria as providências...
Mas o Rei do Cangaço só era valente porque vivia rodeado de cangaceiros... Era tão medroso que não entrou em Itiubinha... Por onde passou foi nas redondeza, saqueando as fazendas e surrando os donos... E ele fazia miséria...
Não foi nada por causa de trincheiras que ele não entrou... Lampião não entrou em Itiúba porque uma entrada segue para Juazeiro do Norte.. e ele tinha um profundo respeito a Padim Padre Cícero... E a do outro lado toca para o Monte Santo, e aí ele não entrou por ele admirar a Santa Cruz...
Ele era mesmo um homem perverso que tinha prazer em matar e roubar, mas, antes de entrar em qualquer cidade, ele acendia uma vela. Caso a vela apagasse ele não entrava, porque lá estavam os macacos à sua espera. Acendeu a vela aqui, que se apagou... Aí é que ele não entrou mesmo em Itiúba... E morreu mas não teve o prazer de entrar na “Itiubinha”, que é como ele chamava."
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Depoimento de José Cícero de Freitas Silva:
"Na... Era Lampiônica... Itiúba viveu dias de medo, coragem, humor e outros tantos adjetivos... Tinha o medo daqueles que não tinham brio para defender a alcantilada Itiúba e, a qualquer anúncio da presença de Lampião nas redondezas, refugiavam-se nos píncaros das serras fugindo do temível bandoleiro...
Contam uma história sobre o Senhor João de Castro numa dessas aproximações...
Ele era dono de uma padaria... Encheu um saco de pães para levar na fuga... Só não percebeu que o saco estava furado... Procurando homiziar-se na Serra do Cruzeiro, deixou o caminho pontilhado de pães... Isso mostrava o caminho por onde tinha seguido.
O medo foi tanto que poucos foram os pães que chegaram ao alto da serra e os que caíram serviram de pasto a pássaros e formigas, pois coragem o mesmo não teve para voltar e recolher os pães perdidos...
Admiro a coragem daqueles que ficavam entrincheirados no bueiro da Santa Helena e do Riacho dos Cambecas...
A qualquer notícia, mesmo que pudesse ser inverídica, para lá se dirigiam para enfrentar e encurralar o facínora, fazendo com que o mesmo não entrasse na cidade onde o Capitão Aristides o esperava com outros valentes...
Coragem, ainda, sem igual era a da dona Mariquinhas que, enquanto viveu Lampião, ela não se desgrudava de um fuzil e um haió... que era um saco feito de fibra de caroá... e que ela deixava cheio de balas...
Desta destemida senhora, conta-se que, certa noite, estava a mesma dormindo quando ouviu o barulho de gravetos sendo quebrados. Achando que eram homens do bando de Lampião, levantando de arma em punho e saltando a janela já com a arma engatilhada, quase tira a vida do seu esposo que estava satisfazendo uma necessidade fisiológica no sossego de muro, que até hoje mantém as características da época."
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Como citar
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Os Assombros de Itiúba - Depoimento de Maria José de Araújo

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1929
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Meu pai foi para roça mais minha Mãe. Aí, o Volta Seca chegou e subiu numa cerca. Aí, o Lampião tava na casa do finado Domingos. Aí, o Rafael, meu irmão que morreu de tosse braba, tinha uns cinco anos e o Marcelino, aquele que tá ali, tava brincando no cercado. E peguei todos dois e botei no quarto e fiquei segurando na mão do outro. E o Lampião chegou e falou:
- Santinha! Não faço nada com você não... Cadê o oro de mamãe?
Eu disse:
- Nós não tem oro.
Ele queria oro. Não era dinheiro não. Minha mãe tinha dois par de argola de oro e duas aliança, uma dela outra do meu pai. Eles foram coisando a casa. Também não ficou nada. Jogaram tudo no chão. Aí ele disse:
- Santinha! Pra onde foi seu pai?
- Meu pai foi pro Cagagaio.
Eu era menina e, pra dizer papagaio, dizia cagagaio. Onde é esse Cagagaio é o Papagaio. Quando meu pai chegou na casa do finado Cecílio, na casa que era do Berilo, já sabia da notícia. Lampião ta aqui no Umbuzeiro.
Chegou aqui numa roça o Lampião. E tinha uma mulher chorando e ele perguntou:
- O que é que tem?
- O cara me botou na rua.
E o Lampião amarrou o cara no cabo do cavalo. E arrastou por cima de pau e de pedra.
- É pra você ter vergonha de não fazer mal as fia aléia.
Eu sei uma música do Lampião:
“Acorda Maria Bunita
torra o teu café”
Lampião ta na revista...
Maria Bonita....
Lampião sé matava delegado, inspetor e os macacos do guverno...
  “Acorda Maria Bunita torra o seu café
Lampião ta na revista
Maria Bunita já ta de pé
Faça o favor de perguntar
que me chamo Vergulino
cravo de moça cheirar”
Lampião era muito ruim. Pegou uma véia e deu uma surra. Era a Maria do Rufino, irmã do Felício. Foi nos Picos. Nos Campinhos.
- O que é que você anda fazendo?
Aí, pegou a véia e deu uma surra... Pois foi...
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Como citar
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Os Assombros de Itiúba - Depoimento de Agenor Rafael da Silva

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"No ano de 1929, morava na fazenda Cajazeiras, no Município de Itiúba... Lampião passou perto de onde eu morava, na fazenda Campinhos, região de Quicé. Lá, entrou em diversas casas. Em uma delas foi na de Joaquim. Nesta casa, ele agrediu o velho Joaquim. Nesse tempo não existia guarda–roupa e Lampião foi até o baú e começou a jogar os panos no chão. Quando Joaquim viu disse:
– O capitão! Não jogue os panos no chão não!
Lampião pegou o fuzil e deu uma pancada na cabeça de Antônio Joaquim. Nesta mesma casa tinha uma moça com o cabelo comprido. E Lampião virou-se para ele e disse:
– Porque não corta o cabelo para ficar bonita?
– Meu pai não gosta que eu corte o cabelo.
Então ele disse:
– Você faz muito bem em não cortar o cabelo. É muito bonito.
A moça estava com umas argolas bonitas e ele quis tirar as argolas das orelhas da moça. E o irmão da moça, por nome João, disse:
– Ô capitão dê licença. Eu tiro as argolas dela e lhe entrego.
Os cangaceiros vasculharam tudo atrás de dinheiro. Acharam o dinheiro escondido dentro de umas cabaças velhas escondidas debaixo de um painel de farinha, pois, naquele tempo não existia banco. Tinha um filho de seu Joaquim casado de novo. A casa dele ficava no terreiro do pai. Uma casa muito bonita, decente e bem construída. Os cangaceiros agarra-no e pediram dinheiro. Ele respondeu que não tinha. Passaram uma corda no pescoço dele para amarrar no cabo do cavalo e arrastar o rapaz. A esposa ficou gritando para soltarem-no que ia buscar o dinheiro. Foi até a casa e pegou quinze contos de réis e deu a Lampião que soltou o rapaz resmungando:
– Não tem dinheiro o quê?! Seu cabra descarado!
Depois desse acontecido, Lampião pediu para colocar um banco no terreiro, perto do cavalo, para ajudá-lo a subir na montaria, pois estava carregado com cartucheiras de bala, fuzil nas costas e aqueles cantis de alumínio, para carregar água. Quando ele saiu da casa de seu Joaquim, a casa ficou cheirando tão mal que tiveram que lavar a casa com água e creolina, pois os homens não tomavam banho, não mudavam de roupa cheia de poeira, sangue de gente e perfume. Lembro-me de tudo. E, na época, eu tinha mais ou menos oito anos.
Me escondi muito em uma roça, atrás da casa. Um dia, de madrugada, chegou alguém chamando:
- Seu João! Seu João!
Meu pai responde:
- Quem é que fala?
O rapaz respondeu:
- É João Basílio! Venho lhe avisar que Lampião vem aí!
O rapaz morava na fazenda Boa Vista. Dentro de casa, todo mundo ficou alvoroçado. Minha avó era uma mulher de uns oitenta anos e meu pai disse:
- Levanta que é pra gente correr.
– Eu não vou não. O que é que o Lampião quer comigo?
– Não, senhora! Levante e vamos embora!
Só se via gente pegar coberta. Esteira de baixo do braço. Os cachorros, amarramos a boca para não latir. Para encurtar a história, ficamos uns três dias no mato. Soubemos que ele estava em Queimadas. Voltamos para casa. O povo contava que Lampião andava com uma agenda com o nome dos fazendeiros. Quando ele passou por lá, nessa época, andava com um guia. E ele perguntava para o rapaz:
- Onde é a fazenda do Zuza da Cajazeira?
Esse Zuza era meu tio e o rapaz que andava guiando-os respondeu:
- Ah, Capitão. Já ficou muito para trás.
– E onde fica a fazenda de João Rafael?
– Ah, Capitão. Também ficou muito para trás.
– E a fazenda de Antônio Rafael?
– Ah, Capitão... Ficou muito para trás.
– Não tem nada não. Na volta, a gente passa lá...
Esses três eram irmãos.
Por causa dessa conversa que meu tio soube, largou a casa muito boa e passou seis meses no mato, num rancho de palha com medo.
De vez em quando, mandava um menino ir olhar lá na fazenda, se não tinha rastro de cavalo.
Depois que Lampião desceu da fazenda Campinhos, passou perto de Cajazeiras, da Fazenda Barras, no sopé da Serra do Souza. Ele foi para a Varzinha.
Disseram que mandou um dos bandidos pesquisar Itiúba, mas, naquela época, estava cheio de homens. Onde tem o posto do Jackson era um grande pé de juazeiro cheio de dormentes, aqueles troncos usados na linha férrea.
Ali, tinha mais de um homem armado esperando Lampião.
Dizem que o bandido retornou e disse para Lampião que a cidade estava cercada e não dava para entrar, pois, se entrassem, morriam.
Além dos soldados que aqui existiam, vinham pessoas de outros lugares, que o Coronel Aristides Simões mandava buscar, para reforçar a cidade...
Essas pessoas eram chamadas de “contratados”.
Eu sei que vieram algumas pessoas de Formosa, perto do Chorroxó, como Simplício e Berto.
Capitão Aristides apoiou-os, pois viu que eram homens dispostos... Aqui ficaram e constituíram família."
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Os Assombros de Itiúba - Depoimento de Helena Isaura de Carvalhal


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1929
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Nós corremos de Lampião até hoje, em nossos sonhos...
Lampião pintava horrores judiando, amarrando as pessoas em pés de mandacaru, matando. E, antes de matar ainda perguntava:
- Como é que você quer morrer? É deitado, sentado, ajoelhado ou em pé?
Contam os mais velhos, que, certa vez, Lampião pediu dinheiro a um jovem casal. Este se negou a dar. Lampião prendeu o marido na cauda de um cavalo e saiu correndo com o animal. A esposa acompanhou correndo até quando encontrou o bando numa fazenda tomando café. O marido continuava amarrado. Ela pediu tanto que ele soltou o homem dizendo:
- Solta esse diabo que parece que é casado de novo!..
Foi no ano de 27 que nós demos a primeira carreira. Eu tinha catorze anos... Vinha a história:
- Vem Lampião! Vem Lampião!
A gente pensava que Lampião vinha. Mas, longe, ele atacou a Fazenda Triunfo. Era um lugarejo. No entanto, o medo era tanto que ninguém pensava em nada. Só em correr para escapar da tirania de Lampião e de seu bando. Aristides, parente nosso, tinha uma fazenda chamada Maravilha.
E, aí, um certo dia, ele mandou um vaqueiro que era procurador fazer um serviço lá na fazenda. E lá Zezinho Ferreira, primo de Júlio Ferreira, o vaqueiro contratador, encontrou Lampião que lhe perguntou:
- Quem é você, que vê Lampião e não muda?
Aí, ele disse:
- O Senhor é homem como eu.
Lampião achou isso uma vantagem, então disse:
- Aqui é a fazenda do capitão Aristides?
Zezinho disse:
- Sim.
Lampião perguntou:
- E ele é muito valente?
- É.
Então, Lampião disse:
- Olhe, vou fazer um bilhete.
E fez. No bilhete ele dizia:
“Aristides, eu sou o Capitão Virgulino, o Lampião.
Escrevo porque sei que você é muito forte e quero ir aí em Itiúba para lhe encontrar.”
Tentou entrar aqui em Itiúba muitas vezes, mas não conseguiu porque só há três saídas e a cidade é cercada por serras...
O Coronel Aristides Simões de Freitas, homem forte, valente, intendente, recebeu o bilhete de Lampião pedindo que mandasse dois contos de réis. E este destemido mandou dizer que ele viesse buscar. Mas Itiúba era prevenida com homens contratados nas trincheiras das três entradas esperando Lampião. Aristides se preveniu. Mandou chamar o povo do Chorroxó. Eles já tinham feito buracos nas imediações do lugarejo, para esperar Lampião. E, atendendo ao chamado do capitão Aristides, o povo de Chorroxó veio. Eram uns onze homens.
Eu me lembro de um que chamava Luiz... E era bonito e forte...
Logo depois, veio esse povo do Virgílio. Aí, Aristides esperou, esperou e ele não veio. Lampião não veio. Só pode ter sido com medo. Nisso, Aristides mandou a resposta do bilhete. Mas, quando o portador lá chegou, ele não estava. Não esperou a resposta de que eles podiam vim. E foram embora. Aristides ficou com esta força de homens armados e com os contratos, guardando a cidade. Tinha uma tropa na estrada de Senhor do Bonfim e outra estação, mas lá muito adiante, quase na fazenda Estado. Só tinham três entradas, e ele, o Lampião, não veio. Fugiu.
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1931
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Quando foi em outra época, em meados de 1929, ele quis entrar aqui...
Chegou até a casa da Fulo, na entrada da Calçada de Pedra, por onde ele tinha que passar para entrar aqui. As tropas continuavam a postos e armadas à espera de Lampião e o seu bando. De repente, ouviu-se um trotar. Era um jumento correndo. Nesse alvoroço, os guardas pensaram que era Lampião, e aí soltaram descargas de tiros. Aí todos responderam e fechou Itiúba de tiros... E todas as outras trincheiras começaram a atirar sendo que estavam avisadas, porque pensaram que os jumentos correndo era a tropa de Lampião. E a gente aqui correu para se esconder.
Mamãe sempre corria. Já era morfina. Vivia com as cobertas no corredor. Quando diziam:
- Olha! Lampião, está perto!
A gente ia se esconder na casa de Sinhá Preta. Mas, com medo dos tiros, corríamos para a Serra dos Macacos, pensando que Lampião tinha chegado. E o povo gritava:
- Lampião chegou!
E lá passamos três dias, porque podia ele chegar. Encontramos uma mulher que vinha com o chinelo na cabeça, e perguntamos:
- O que foi?
Ela disse:
- Já mataram Seu Simão, lá do Tatu, e foram para a casa de dona Amélia, do Castanho.
Eram todos tios nossos. Mamãe chega caiu do susto. Lá dormimos na cama feita de casca de feijão, mas tudo ficou em silêncio. No entanto, mamãe não quis descer. Com três dias depois, teve outro alvoroço, outro tiroteio. Aí fomos pela Fazenda Tapera, por dentro do mato. O mato grande não tinha caminho. A gente ficava cansada, mas tinha que continuar para fugir do tirano Virgulino, vulgo Lampião.
Aí, passaram-se poucos dias e Lampião entrou em Bananeiros.
A notícia chegou até aqui pelos telégrafos... Mamãe quase que morre... Estávamos na escola. Nós quase não aprendemos a ler, porque eram só três anos de estudo na escola. Vivíamos fugindo.
O prédio era perto da Estação Ferroviária, local aonde Lampião iria primeiro, para cortar o sino. Porque bater o sino era um dos sinais que avisavam que Lampião estava chegando ou que estava por perto. Fugimos para a casa de Sinhá Preta, onde tinha um caldeirão. Papai dizia:
- Quando tiver tiroteio, vamos nos deitar, todos aqui atrás dessas pedras.
Quando foi um certo dia, no meio da noite, estávamos limpando o tanque da nação e tinha dois bangüês para carregar o barro. Quando nós enxergamos Vovó Iaiá Bebé com os bangüês todos melados de barro. Ela não caminhava. Não era pela idade que ela tinha, mais ou menos oitenta anos. Era porque ela sofria de asma e era murfina. Ficou tropa.
Aí, Aristides colocou ela dentro do bangüê e mandou entregá-la a papai. Aí foi quando teve outro tiroteio e avisaram que Lampião já estava na casa de Dona Fulo...
E teve este tiroteio.
Nós, então, fomos para a Serra dos Macacos e deixamos vovó na casa de Sinhá Preta, que morava ali perto da Fazenda Umbuzeiro. Foi cômica essa história. Correu todo mundo. Só dois homens não correram, o Pai do Nino Pires e Acelino. Para piorar a situação, nessa noite papai não estava em casa. Tinha ido visitar um compadre e mamãe disse:
- Como é que a gente corre?
Eu só sei que corremos. Corremos nos capinzais adentro. Que fuga louca. Ali era verdadeira luta pela sobrevivência...
Eu sei de tanta coisa...
Uma delas é que meu avô materno contava que Lampião dormiu em sua fazenda, onde foi recebido com maior respeito... O rei do Cangaço abriu as cercas da roça de meu avô e colocou os animais para comer toda plantação. No dia seguinte o cangaceiro deu dinheiro para que fizesse uma nova plantação.
Lampião pernoitou na casa de meu pai, e, na hora da janta, tirou uma colher de prata que trazia. Antes de comer colocou a colher na comida para ver se não estava envenenada. Caso a colher ficasse preta era porque havia veneno. Ele tinha vontade entrar na cidade, mas o mesmo temia o Coronel Aristides Simões, que também era conhecido pela sua valentia. Aristides e a população estavam sempre armados à espera do cangaceiro do Nordeste. O Rei do Cangaço estava furioso porque queria roubar o cofre o senhor Belarmino Pinto de Azeredo, que foi o primeiro prefeito de Itiúba, e saquear a feira livre.
Lampião e seu bando chegaram na casa de uma senhora conhecida como Fulô, na zona rural de Itiúba, ameaçando entrar na cidade. Ela disse a Lampião:
- Coronel Lampião, não vá não! Eu sou amiga para lhe dizer que lá tem forças fortes, soldados e homens contratados nas trincheiras.
Desistindo da investida, seguiu para Queimadas. Cortou os fios da estrada de ferro para que ninguém mandasse telegramas avisando que estava chegando. Já em Queimadas foi para o quartel, onde prendeu o sargento e os soldados. Passou a noite dançando. Ao amanhecer o dia, seguiu novamente para o quartel e matou sete soldados, sendo um filho de Itiúba...
E assim seguiram viagem para Santa Rosa...
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Os Assombros de Itiúba - Depoimento de Raimundo Batista Pinto


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1929
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Em 1929, Lampião chegou na Fazenda Desterro... que fica em Monte Santo... Não sei de onde e por onde veio... Então, mandou a carta ao coronel Aristides, pedindo três contos de réis, pelo vaqueiro Zezinho, de Licuri Torto...
Aristides, não mandando os três contos de réis. E o Lampião não escreveu na carta, mas disse ao vaqueiro que ia, se não recebesse o dinheiro, invadir Itiúba... Foi a hora que Aristides botou as trincheiras... Ele botou quarenta homens no trecho da Calçada de Pedra,,, e quarenta homens na Cambeca, que eram as entradas da cidade... Sustentou esses oitenta homens por três meses, com cachaça, rapadura e comida...
Teve ajuda de muitas pessoas que chegavam vindos de Chorrochó, especialmente a família Rodrigues de Souza...
Inclusive, teve a participação, com clavinote, de Cipriano e Bertolino Rodrigues de Souza... Um irmão também deles, por nome Carrinho, que chegou aqui na terra com fama de matador... E este esteve na frente das trincheiras da Cambeca... Esse era mesmo pistoleiro matador... Aquela coisa de Lampeão acender vela para saber se entrava em Itiúba é invenção... Disseram, na época, que ele mandou um jagunço disfarçado, que sondou e viu as duas entradas com defesa muito boa... e resolveu não entrar...
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1931
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Em 1931, Lampião estava vindo da região da Canoa, em Bonfim. Seguia pela estrada de ferro, acompanhando. Passou perto de Quicé e a chegada foi pela Fazenda Vasa da Água... Foi a primeira que ele penetrou, quando veio de Quicé.
Pegou como primeiro guia um vaqueiro que dava água ao gado. Era o Antônio Gama. Pediu que mostrasse uma vereda que desviasse de Itiúba. O vaqueiro disse que tinha que seguir para a direção da Várzea da Roça e daí chegar até a Fazenda Umbuzeiro.
Mais um pouco e ali ele despachou o guia... e pegou outro chamado Galdino de Leotério... Era filho de Leotério... que era fazendeiro. Seguiram então para a Fazenda Varzinha, a cinco quilômetros de Itiúba. Nisto, encontraram com um casamento, no topo da serra... O homem do casamento chamava-se Barão.
Continuaram, então, para a Fazenda Varzinha da Olaria.
A primeira casa que encontraram na Varzinha foi a de Totonho do Cori... Coriolando Coelho Goes... Eram seis e meia da tarde, e Lampião perguntou ao guia Galdino de Leotério se Totonho era valente. O Galdino, então, respondeu que ele era muito valente.
Então o capitão bateu na porta do Totonho, gritando que era Lampião, e que ele se preparasse para morrer.
Totonho pediu que esperasse, que ia abrir a porta, e mexeu, fazendo barulho, como quem está tentando usar a chave. Então, correu para a porta de trás. Antes de abrir, olhou por um buraco e viu dois canos de arma longa. Ele voltou para a porta da frente, quado Lampião bateu de novo, com força, gritando:
- Totonho do Cori! Abra a porta pra morrer!
E ele voltou a fingir que estava abrindo o ferrolho, e que tinha enganchado. E disse alto:
- Pronto, capitão! Vou abrir agora! Estou abrindo!
Na casa tinha ele e cinco mulheres, uma sendo a esposa dele que tinha 12 anos de idade, a Santinha, que estava grávida já no nono mês.
A porta de Totonho era daquela que tem duas partes, uma em cima e uma embaixo. Então, ele destrancou mesmo a parte de baixo e empurrou com tal força e velocidade que arrancou as bizagra. Na hora, bateu a pancada num cangaceiro e Lampião atirou no susto e a bala pegou na parede de frente. Foi na hora que Totonho do Cori avançou, correndo de quatro pés, e se atirou por baixo entre as pernas de Lampião, que pulou tentando atirar. Mas ele avançou correndo abaixado, ainda de quatro pés, passando entre as pernas dos cangaceiros.
Lampião gritou, na hora:
- Eta, homem liso!
É que ele estava todo suado, pois estava fazendo uma mesa... Ele era marceneiro... E eles tentavam acertar ele, mas ele foi muito rápido.
O primeiro alívio foi quando ele, tendo passado o grupo, se jogou por baixo dos burros e cavalos deles... Então, ele conseguiu correr pra mata, mesmo levando muito tiros, mas não foi baleado...
Lampião então entrou na casa de Totonho do Cori e perguntou quem era a mulher dele.
Ela disse:
- Sou eu!
Ele então falou:
- Me dê um copo de água a bem da morte do seu marido!
E ela deu a água.
Nisto, a sogra de Totonho, dona Mariinha, começou a xingar o grupo.
Eles pegaram a velha e entregaram o mocotó na mão do Volta-Seca, que arrastou a velha umas sessenta braças toda descomposta.
Jogou ela numa moita de xique-xique e disse:
- Eita, velha ruim danada!
Seguiram para a Fazenda Maté, com uns quinze homens mais o guia, somando dezesseis.
Aquela conversa de que acendeu uma vela para ver se entrava em Itiúba é mentira... Não acendeu vela nenhuma... Ele queria mesmo era contornar a cidade...
Chegaram na casa de Pedro de Souza Góes. Não buliram com nada nem ninguém., por ter uma mulher doente com febre.
Da Fazenda Maté seguiram para a Fazenda Poço do Cachorro... Encontraram um senhor por nome Isidoro Cardoso, que vinha cortado de machado... Perguntaram como ele se cortou e não fizeram nada com ele...
Amanheceram o dia já na Fazenda Desterro, que pertencia ao coronel Aristides... Lá dormiram... Comeram um bode... E mandaram o guia Galdino embora com um burro selado e um facão...
Pegaram um terceiro guia... o Delfino, da Tapera do Rocha... Seguiram em direção a Cansanção e Monte Santo, deixando em paz o terceiro guia...
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Os Assombros de Itiúba - Depoimento de Robério Pinto de Azerêdo.

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1929
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"Lampião passou pelas cercanias duas vezes... Nesse tempo, Itiúba era um arraial e quem administrava era o capitão Aristides e senhor Belarmino, posteriormente o primeiro prefeito de Itiúba, que eram os encarregados por recomendação de Queimadas, município pelo qual Itiúba dependia.
Em 1929, Lampião chegou até a Fazenda Desterro, do outro lado do Rio Jacurici... fronteira com o Município de Monte Santo, ao lado nordeste de Itiúba.
Ele se aproximou no tanque para dar água aos animais e encontrou um vaqueiro do capitão Aristides conhecido Zezinho do Licuri Torto. Aí, perguntou quem era ele e o mesmo lhe falou que era vaqueiro do capitão Aristides. Conheço bem esta história, pois eu, já maduro e pesquisando sobre o ocorrido, conversei com Zezinho...
Lampião disse que tinha uma carta para mandar por ele e redigiu-a ligeiramente para ele trazer aqui, para Itiúba, no mesmo dia, pedindo na mesma:
“Capitão Aristides. Mande-me três contos de réis de que preciso pagar meus coiteiros. Necessito desse dinheiro. Não bulo com seus animais, nem com suas fazendas. Mande hoje mesmo.”
E assinou: “Capitão Virgulino, o Lampião”
Eu era bem menino, nos meus dez anos de idade... e vi muito bem a hora que chegou o portador na casa do Capitão Aristides... Não dá para não lembrar, pois foi uma comoção geral.
Aqui era assim... Tinha soldados e contratados. Era mais ou menos, no normal, a proporção de noventa por cento de contratados...
O capitão Aristides era um homem grande, com dois metros de altura, muito disposto, um homem bom, o verdadeiro herói... Determinou a seu vaqueiro que ele não voltasse lá, que ele poderia trucidá-lo... Ele, então, convocou as autoridades e resolveu armar o povo, inclusive, os negociantes daquela época.
Diziam:
- Lampião vai passando ou tá próximo em tal lugar... Ribeirão do Pombal... Jaguarari... Cansanção...
Os soldados não eram suficientes.
Contratou mais meia dúzia de soldados e chamou mais gente valente de outros lugares... Tinha gente braba de Patamuté... de Chorrochó... Mandavam buscar homens bravos e destemidos na região de Paulo Afonso... Campo Formoso... Canudos... Eu mesmo via eles aqui na rua, pra para cima e pra baixo...
E esses cento e tantos homens armados ficaram em piquetes, nas trincheiras, e sobre aviso, esperando a invasão... Armaram-se cento e tantos soldados e contratados e foram para uma trincheira na Calçada de Pedra, e outra na saída da cidade que vai para Senhor do Bonfim e Filadélfia... Era onde atualmente está a Rua das Piabas... que era a antiga Cambecas...
A trincheira na Calçada de Pedras era assim... Usava as grandes pedras que tem lá, e ainda cavavam por trás delas, para dar mais segurança...
Os negociantes e os mais importantes, também os operários, os camponeses, os pequenos comerciantes como Elísio Ferreira, o próprio Aristides, Manoel Pinto, irmão de Belarmino, foram convocados... Os negociantes se armaram com fuzis, rifles, mosquetão... papo amarelo... e outras armas. A gente via todo mundo armado o tempo todo pela cidade.
Destaco, além de Aristides, Belarmino Pinto, também chamado seu Belau, o coronel João Antonio da Silva Neto e, como um dos valentes, Benedito Pinto, o Bino Pinto.
O pai do Joãozinho do Bel foi um dos que se armaram... Suplicio, pai do seu Virgílio, era contratado... O comércio local era quem contratava e pagava por mês... Fez assim por muitos anos... E os contratados ficavam todos os dias... sábado... domingo... na expectativa de esperar Lampião...
Lampião ficou esperando lá e ele não mandou o dinheiro. E o mesmo não veio, nem atacou a cidade... Lampião desviou a passagem dele... e foi para Queimadas..."
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1931
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“Depois de dois anos da primeira passagem, já em 1931, Lampião voltou a passar pelas cercanias da cidade de Itiúba... A cidade ainda permanecia em alerta desde a primeira visita... As trincheiras e os homens ainda estavam lá... Só diminuiam um pouco quando Lampião estava longe, mas, quando ele se aproximava, reforçavam tudo de novo.
Quem chegasse à cidade veria as trinheiras dos dois lados... com os homens armados.
E o Lampião chegou, precisamente, na Fazenda Campinhos...
Lá, ele entrou na casa de Edístio Celestino e viu uma mesa com uma gaveta fechada. Se aproximou e com uma faca começou a forçá–la. Então, a dona da casa disse:
– Não precisa isso, não.
E chamou o marido, o Edístio. Este foi, pegou a chave e abriu a gaveta.
Lampeão pegou então um broche de ouro, umas coisinhas mais e o dinheiro, e saiu sem fazer mal ao pessoal... E eu sei muito bem a história porque conversei com a Maria de Edístio Celestino, filha do velho, que era ainda menininha de sete anos de idade, estava no quarto e assistiu a cena toda... Nunca esqueceu...
Ele entrou na área do Município de Itiúba, pelas cercanias de Pintadas, Campinhos, Ariri, até aqui no Umbuzeiro, na Varzinha e Poço do Cachorro.
Como já tinha notícias de que na cidade havia trincheiras à sua espera, aos sábados, ele mandava cabras de seu bando à feira de Itiúba, para sondar se tinha gente armada e se a cidade estava prevenida ou não, para que ele e o seu bando pudessem entrar. Pois o medo dele era encontrar moradores, contratados e os soldados armados esperando por ele e sua corja.
Sabendo que ele tinha vindo por lá, o coronel Aristides tinha dado a instrução certa... A ordem era não dar combate quando eles chegassem... Que procurassem ficar escondidos, quietos... e deixassem eles entrar... Ou que, se fossem vistos, alguns deles entrarem em luta e perderem, deixando ele entrar... Quando Lampião estivesse dentro, o grosso dos homens iria descer e fechar aquela saída... E, aqui dentro, já estava apinhado de gente armada... Já viu, né? Ele estaria dentro de uma arapuca... Então, a ordem era deixar passar... Não atirar ou não lutar de verdade... até fechar o cerco...
Lampião encontrou um casamento no caminho. Isso na Varzinha, indo para Poço do Cachorro... Era um pessoal de Caraíba...
Parou o cortejo do casamento e perguntou:
- Vocês vêm de Itiúba?
E o pessoal respondia:
- Venho.
-Você me diga... Tem gente armada lá?
- Sim, tem muita gente armada, o pessoal do Belarmino, muita gente contratada, muita gente armada até os dentes, capitão... Os comerciantes também estão armados...
Ele olhou a topografia, as montanhas e viu que eram fechadas. Porque a ordem era a seguinte... Combater aqui, dentro no arraial.
Ele parou, conversou ali com os cabras dele, e disse, que o pessoal do casamento ouviu:
- Eu não meto a mão em cumbuca... Nós não vamos entrar não em Itiúba. Itiubinha... Dessa vez você escapa... Itiubinha...
Aqueles do seu bando que esperavam à sua volta, nas pedreiras das montanhas, espancaram uma velha, saquearam o capitão Antonio Joaquim, avô daquele Mundinho dos Carvalhal. Tomaram dinheiro deles. Mais ou menos uns três ou quatro contos de reis. Mas aqui no arraial ele não entrou. Ficou com medo dos cabras machos que aqui os esperavam...
A gente soube, depois, de algo muito interessante... sabido lá em Cariacá... Aqui, na feira, disfarçado, entrou Corisco, todo vestido direito... sondando as defesas... E entraram outros cangaceiros também, bem disfarçados...
A residência do Aristides está ali, ainda como era na época... Dizem que aqueles buracos na parte de baixo eram para os defensores dispararem... Sou da época e não lembro nada disso... Acho que era uma espécie de respiradouro somente. E eu não vejo como alguém poderia se utilizar bem daquilo ali para se defender... Não dá jeito... Não tinha altura para isso..."
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