sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

 A Religiosidade do Capitão

 

 

Até os homens mais bárbaros da história da humanidade tinham religiosidade. Talvez não fossem homens frequentadores de templos, mas detinham em suas mentes crença em situações com relações de causa e efeito que não se podem mostrar de forma racional ou empírica. Tinham alguma forma de superstição. Alguns estudiosos da Bíblia afirmam que a superstição infringe as leis ali descritas e está portanto em contradição com sua religião. No entanto a própria Bíblia aceita as superstições do povo judeu, uma vez que é um texto produzido por aquele ambiente cultural. Entre elas estão a questão da pureza no comportamento sexual, a recusa em consumir alimentos considerados impuros, o não contato com cadáveres, o próprio entendimento do que é pecado, a observância do sábado entre outras. Muitos destes conceitos culturais foram herdados pelo cristianismo que assimilou a crença em demônios, no juízo final, no arrebatamento ao final dos tempos.

Nesse pequeno artigo, faremos uma análise comentada das páginas 28 a 34 do livro de Nertan Macêdo “Lampião”, onde disserta sobre a religiosidade do Capitão Virgulino onde diz que tal religiosidade era a do “... sertão, a das Missões antigas, um catolicismo velho, feito de lendas, superstições, ladainhas, rosários, encomendações, ofícios de trevas, horas marianas, missões abreviadas e Lunário Perpétuo. A mesma dos seus antepassados que oravam no meio da noite e ao meio-dia, horas em que o Diabo se solta para perder o mundo. Sentimento de fundas raízes, no espaço e no tempo. No seu viver de perseguido, rezou sempre.”


A fé se manifesta de várias maneiras e pode estar vinculada a questões emocionais tais como reconforto em momentos de aflição desprovidos de sinais de futura melhora, relacionando-se com esperança e a motivos considerados moralmente nobres ou estritamente pessoais e egoístas. Pode estar direcionada a alguma razão específica que a justifique ou mesmo existir sem razão definida. E, também não carece absolutamente de qualquer tipo de argumento racional.



Em referência continuando nas palavras do escritor Nertan Macêdo "Quando o sol se empina e lhe vai em raios verticais sobre a cabeça, a sombra minguada aos pés, nos pousos, nas estradas, nos combates, ele verga os joelhos, genuflexo, no chão duro, pende a cabeça humilhada e, contrito, com a grande mão ossuda e escura a bater no peito, reza com fervor. Os companheiros, em torno, fitam-no cheios de respeito estranho. Se a cavalo perlustra erma estrada, quando o seu relógio marca as doze horas, ele se apeia e, genuflexo na areia quente do caminho, curva a cabeça a se comunicar com as misteriosas forças do Além. Mesmo no mais renhido tiroteio, abandona o fuzil e suplica a não sei que santos ou diabos lhe continuem a conservar o corpo fechado".



Era um homem cismado e mantinha suas crenças pessoais, talvez adquiridas em sua formação religiosa, assim como tantos sertanejos possuíam. Era também sectário enquanto não aceitava a religião africana. Dentre as muitas estórias do Capitão, conta-se que, numa noite, quando descansava da caminhada, ouviu toadas de candomblé no meio do mato. Não via aquela a sua religião. Aproximou-se de mansinho, surpreendendo alguns fiéis em torno de um pai-de-santo, um negro. Espantou-se, obrigando o feiticeiro a comer a galinha sacrificada, expulsou-os dos seus domínios, em nome da Virgem Maria e do Padre Cícero Romão Batista. No entanto, de uma feita, na povoação de Novo Amparo, arranchou-se numa casinha. Enquanto comia o almoço, fez arder nos cantos da sala quatro velas. Acreditava nas rezas-fortes que tornam o corpo imune às balas e perigos. Quem sabe se isso é verdade? Tantas estórias existem da vida do Capitão!


“A formação da gente sertaneja é baseada no início do descobrimento do Brasil e o Diabo veio nas caravelas de Cabral, trazendo o frade capelão Henrique de Coimbra. Com o frade desembarcou no Brasil um personagem até então desconhecido dos nativos — o Diabo — naquele longínquo ano de 1500 do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Numerosos disfarces, Lúcifer, Asmodeu ou que outro nome tenha, a réplica de Deus distribuiu-se pelos litorais da nova terra, repartindo-se, mais tarde, entre os bandos de penetração, com os quais chegou aos sertões do nordeste, nos tempos do povoamento. Conheceram-no, escamoso, repelente, indesejável, os índios e os negros, pela pregação terrificante dos missionários europeus, pela tradição verbal dos colonizadores lusitanos. Daí concluir Luiz da Câmara Cascudo: o Diabo brasileiro é o velho demônio português, "com os mesmos processos, seduções e pavores".


Oficialmente, todavia, a presença do Cão no Brasil só foi reconhecida e proclamada muitos anos depois da Descoberta. Cascudo, com razão, assinala tal reconhecimento e proclamação oficiais, no “Documentário da Visitação do Santo Ofício” — dois volumes da Bahia, um de Pernambuco —, os quais registram as comunicações do Tinhoso com amigas bruxas — "algumas sabendo até criá-los em vidrinhos, como filhinhos, tornando-se o familiar, espécie de diabinho doméstico, servo da feiticeira".



No país de Lampião, a figura clássica, a imagem tradicional do Diabo é mesmo aquela descrita pelo escritor potiguar: negra, magra, chifruda, de rabo, casco, espeto, assumindo tanto as formas de um bode, como as de um morcego, as de um porco, as de uma mosca, de um cachorro grande ou de um gato. Só não pode assumir, no universo nordestino, as formas dos animais abençoados, historicamente ligados ao nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo: o boi, o jumento, a ovelha, o galo.


Lampião sabia que a hora da aparição do Diabo era na meia-noite, pelas encruzilhadas desertas. Sabia que, para afugentá-lo, de nada valiam os rifles e punhais. As armas eram outras: a cruz, a oração, a água benta. Ruim e perverso se lhe afigurava o Tinhoso. Era ele quem procurava arrebanhar as almas do outro mundo às profundas do seu reino abismal, o que obrigava, também, a vigília constante de São Miguel Arcanjo, guardião celeste, juntamente com Nossa Senhora e todos os Santos do Céu.


 

Os avós de Lampião conheciam o Diabo de longa data. O Diabo que tem, em Portugal e no Brasil, tantos nomes quantas são as suas ciladas: tanso, carocho, enguiço, azango, onzoneiro, diacho, nica, careca, tição negro, coisa má, caipira, mafarrico, demo, malasartes, tatro, trado, porco sujo imundo, cão tinhoso, tisnado, sarapelho, fusco, cornudo, barzebu, satanás, mulambudo, esmulambado, cambito, dedo, moleque, fute, pé de meia, dêbo, pé prêto, pé de pato, futrico, figura, bode, capa verde, gato prêto, malino, sapucaio, pêro botelho, bicho, rapaz, tinhoso, capeta, capiroto, coxo, coisa suja, maioral, ele, maldito, demo, cafute, droga, excomungado drale, bode sujo, inimigo, mofino, maldito não sei quê diga, tição, taneco, temba, sarnento, encapetado, dianho...

Alguns títulos do Capiroto soam como apelidos de cangaceiros que as diabruras do cangaço apareciam aos olhos do povo nordestino como artes do Demo. Lampião, ele próprio, encarnava  segundo alguns sertanejos, o Demônio em figura de gente.


Gustavo Barroso sintetiza bem a imagem do Tinhoso na alma sertaneja, com as seguintes palavras:  “Geralmente, o demônio sertanejo, como o de todos os povos, é criado a sua imagem e semelhança. Anda, por isso, encourado como os vaqueiros, monta a cavalo, é especialista em velhacadas de cigano, gosta de cachaça, come picadinho de bode com jerimum, dança nos sambas, campeia o gado, faz a côrte às moças, e desaparece sempre com um estouro e um fedor terrível de enxofre ou de chifre queimado.”

O sertanejo herdou do português a velha crença nas chamadas horas abertas, meio-dia, meia-noite, fim da noite, fim do dia. Tão forte é a presença do Diabo na vida do sertão que até em sonho cangaceiro tinha mêdo dele. Assim foi o Capitão Lampião. Chei de crenças e pavores herdados nas heranças missionárias dos jesuítas, onde escreve Euclides da Cunha, mostrando que  "O povoamento do Brasil fêz-se, intenso, com dom João III, precisamente no fastígio de completo desequilíbrio mental, quando todos os terrores da Idade Média tinham cristalizado no catolicismo peninsular".


Nertan Macêdo liricamente disserta “Esse catolicismo peninsular transplantou o Diabo ao mundo da solidão sertaneja e, anjo caído nas trevas, entrou de rijo na poesia cantadoresca, com suas gestas de bichos e cangaceiros. Afirmou-se como um participante ativo da ordem moral dos confinados, do caráter mesmo daquelas gentes, de quem o cronista admirável escreveu, certa vez: "Caldeadas a índole do colono e a impulsividade do indígena, tiveram, ulteriormente, o cultivo do próprio meio que lhes propiciou, pelo insulamento, a conservação dos atributos e hábitos avoengos, ligeiramente modificados apenas consoante as novas exigências da vida. E ali estão com as suas vestes características, os seus hábitos antigos, o seu estranho aferro às tradições mais remotas, o seu sentimento religioso levado até ao fanatismo, e o seu exagerado ponto de honra, e o seu folclore belíssimo de rimas de três séculos..."

Sim, como até hoje, missionários religiosos com sua autoridade imensa, continuam agora a desenhar em países atrasados na África e continuam nos rincões sertanejos, principalmente ainda nos cafundós do nordeste brasileiro, a montar suas teses de domínio da mente humana, com seus ensinos da imaginação, a figura do Diabo.

No Brasil, as Missões Católicas no sertão — as Santas Missões, assim como se deu no estado americano do norte, a California, envolvendo os índios, a derramar suas ladainhas a respeito do diabo e sua morada o inferno de fogo.

Tudo isso veio a alucinar o sertanejo crédulo; alucina-o, deprime-o, perverte-o. Conta-nos Nertan Macêdo que o ilustre sergipano Gilberto Amado, quando menino, no tempo da Guerra de Canudos, assistiu a uma dessas Missões na sua cidadezinha de Itaporanga da Ajuda. O relato é admirável: "Os frades engrolavam um vocabulário restritíssimo. Suas guturais rasgavam os ouvidos. Dom Amando, o chefe, o maioral, esguio, o nariz adunco, as faces cavernosas, os olhos fundos, tipo de monge tenebroso, movia-se com algo de espectral e quando, ao deixar a latada na sombra, chamava o capuz sobre a cabeça e tomava o ar de uma grande ave noturna.” - Fazia mêdo. Tudo isso era para amedrontar mesmo, pois a forma de trazer o povo crédulo para os átrios das igrejas era essa e foi aprendida pelos protestantes, que agora usam esse mesmo método para trazer seus crentes à fé.


Luís Cristóvão dos Santos, cronista do sertão pernambucano, natural de Pesqueira, conta-nos que ainda menino foi morar em Custódia, para onde se mudou a família, e que em uma Missão pregada polo famoso Frei Damião, ouviu o sermão do frade e narra o fato: "A princípio o taumaturgo. descreveu as delícias do céu, os querubins tocando harpa e uma nuvem de incenso vagando no azul, entre anjos e santos.


A multidão ouvia em silêncio, maravilhada e boquiaberta. Então, de repente, o frade mudou. Sacudiu os braços e soltou a. maldição terrível: — Homens sem Deus, mergulhados na lama do pecado. Amancebados! Mentirosos! Adúlteros! Arrependei-vos de vossos pecados. E passou a descrever as torturas do inferno. labaredas subiam, tochas ardendo, um relógio marcando: Sempre! Sempre! Nunca! Nunca!, que são as horas da Eternidade. E no meio da fornalha, o suplício do fumaceiro de enxôfre sufocando tudo.

Aí a multidão se abateu, lábios ciciavam. "Eu pecador, me confesso a Deus", almas tremendo de pavor, como corpos sacudidos de maleita. Junto de mim um matuto de Quitimbu tinha os olhos esgazeados. Cheguei mesmo a ver o suor lhe empastando a fronte morena. Uma velha traçou o xale com fôrça, cobrindo a cabeça tôda, temendo a baforada do Satanás. E ao meu lado, um soldado desatou o lenço que trazia ao pescoço, como se a coisa lhe abafasse a respiração. E, voltando-se para um companheiro, avisou que ia tomar uma "bicada" pois o cheiro do enxofre estava lhe sufocando a garganta. Depois frei Damião baixou os braços, serenou a voz. Nunca, na minha vida, vi silêncio maior. A praça parada, o povo de lábios chumbados, olhos fitos no frade. Só o vento inocente agitava de leve as bandeirinhas de papel de seda, que drapejavam acima das cabeças e do fogo do inferno. Então o frade rezou. E a multidão respondeu, contrita e imóvel, como, se ao invés de milhares de vozes, ali estivesse apenas uma só pessoa, postada diante do pregador famoso, na hora aguda do juízo final, prestando contas ao Altíssimo. Aquilo não era Custódia. Era o vale de Josafá"...


Essa foi a maneira que o sertanejo nordestino foi catequisado. O Capitão Virgulino Lampião, veio desse meio, onde o domínio religioso usava o Diabo e por isso a proteção contra ele teria que ser nas fortes rezas, nos escapulários com papeis escritos e costurados, como se costurado à alma do suplicante e usuário dos mesmos, fechando seus corpos de faca e bala, doenças, pobreza, contra injustiças, contra mau-olhado e inveja. Esse foi e ainda é o sertão de Lampião.


Raul Meneleu Mascarenhas

Fonte: http://meneleu.blogspot.com.br/2015/01/a-religiosidade-do-capitao.html