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"Uma boa parcela dos frequentadores dos blogs que divulgam a História e Cultura Nordestina, especialmente do Cangaço, têm interesse em adquirir livros que tratam desse fenômeno, mas não sabem como e onde.
O meu trabalho é facilitar e contribuir para que mais pessoas possam ter
acesso a essas obras.
Venho conseguindo bons resultados como o apoio vital de
muitos amigos que tenho espalhados por todo o Brasil. Faço esse trabalho com
muito prazer."
prof. Pereira
Contato: franpelima@bol.com.br
Blog destinado à preservação da memória do Cangaço na Bahia, em todas as suas dimensões e extensões.
13 junho 2015
Alpercatas aladas...
Um desenho interessante da antiga mobilidade dos cangaceiros pode ser obtido, com base nos jornais contemporâneos aos eventos. Confiando nos reportes, aparentemente, mais consistentes, estes foram, aproximadamente, os primeiros passos dos cangaceiros, na Bahia, em 1928.
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21 de agosto a 13 de setembro de 1928:
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13 de setembro a 22 de dezembro de 1928:
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Integrando, de 21 de agosto a 22 de dezembro de 1928:
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Como citar
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21 de agosto a 13 de setembro de 1928:
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13 de setembro a 22 de dezembro de 1928:
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Integrando, de 21 de agosto a 22 de dezembro de 1928:
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Como citar
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06 junho 2015
Anexos da primeira edição do livro "Derrocada do cangaço no nordeste", do coronel Felipe de Castro
Considerando a imensa dificuldade para se conseguir esta fonte, em boa parte omitida nas edições posteriores desta publicação, reproduzimo-la, aqui.
Como citar
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03 junho 2015
Cada cabeça... um prêmio
É notória a propaganda do prêmio pela cabeça de Lampeão, oferecido pelo Governo da Bahia:
Mas... de quanto seriam os prêmios, também oferecidos pelo Governo da Bahia, para cada um dos demais cangaceiros? Ela emergiu de uma relação e acordo entre os Manoel Campos de Menezes e João Facó. Em 1933:
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Como citar
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Mas... de quanto seriam os prêmios, também oferecidos pelo Governo da Bahia, para cada um dos demais cangaceiros? Ela emergiu de uma relação e acordo entre os Manoel Campos de Menezes e João Facó. Em 1933:
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Como citar
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16 maio 2015
Sargento De Luz, o matador do cangaceiro Jurity
A localização de imagens relacionadas ao Cangaço é relativamente fácil.
Mais difícil é a disposição de imagens em qualidade melhor, incluindo-se nitidez e resolução.
O caminho é ainda mais pedregoso quando buscamos uma fotografia que mostre uma personagem determinada.
Uma delas é a do sargento De Luz.
Conforme Alcino Alves Costa, seu verdadeiro nome era Amâncio Ferreira da Silva, um pernambucano, nascido em 1905, que, passando ao Estado de Sergipe, acabou, neste Estado, integrando a sua polícia.
Seu maior feito lembrado relaciona-o ao cangaceiro Jurity.
"- Não sabia que era tão fácil pegar um jurity!"
Apesar da exibição de documentação comprovando ser uma pessoa quite com a Justiça, valendo-se do mesmo estar desarmado, enquanto estava acompanhado de praças armados, não só lhe deu ordem de prisão. Em um dos atos mais covardes, em tempos já pós-cangaço, foi conduzido a lugar ermo onde executou-o, atirando-o vivo em uma fogueira.
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A única imagem, até agora, reconhecida, era aquela obtida por Alcino Alves Costa:
Porém a reobservação e reestudo de material disponível pode conduzir a revelações.
A foto abaixo, publicada no "A Noite Ilustrada" de 08 de novembro de 1938, mostra a entrega do subgrupo comandando pelo cangaceiro Pancada.
Em sua legenda uma identificação reveladora.
Eis, enfim, uma imagem em melhor qualidade e menos alegórica do temível Sgtº De Luz, uniformizado e aparatado, em um evento relacionado ao fim do Cangaço.
Conforme Alcino Alves Costa, De Luz foi executado em uma tocaia encomendada por seu sogro, em 1952.
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Como citar
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Mais difícil é a disposição de imagens em qualidade melhor, incluindo-se nitidez e resolução.
O caminho é ainda mais pedregoso quando buscamos uma fotografia que mostre uma personagem determinada.
Uma delas é a do sargento De Luz.
Conforme Alcino Alves Costa, seu verdadeiro nome era Amâncio Ferreira da Silva, um pernambucano, nascido em 1905, que, passando ao Estado de Sergipe, acabou, neste Estado, integrando a sua polícia.
Seu maior feito lembrado relaciona-o ao cangaceiro Jurity.
Jurity, em tempo de Cangaço
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Pós-Cangaço, já como o cidadão Manoel Pereira de Azevedo.
(imagem obtida por Rubens Antonio em suas pesquisas nos arquivos baianos)
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Localizando-o, o sargento De Luz, ironizou."- Não sabia que era tão fácil pegar um jurity!"
Apesar da exibição de documentação comprovando ser uma pessoa quite com a Justiça, valendo-se do mesmo estar desarmado, enquanto estava acompanhado de praças armados, não só lhe deu ordem de prisão. Em um dos atos mais covardes, em tempos já pós-cangaço, foi conduzido a lugar ermo onde executou-o, atirando-o vivo em uma fogueira.
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A única imagem, até agora, reconhecida, era aquela obtida por Alcino Alves Costa:
Porém a reobservação e reestudo de material disponível pode conduzir a revelações.
A foto abaixo, publicada no "A Noite Ilustrada" de 08 de novembro de 1938, mostra a entrega do subgrupo comandando pelo cangaceiro Pancada.
Eis, enfim, uma imagem em melhor qualidade e menos alegórica do temível Sgtº De Luz, uniformizado e aparatado, em um evento relacionado ao fim do Cangaço.
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Como citar
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23 janeiro 2015
A Religiosidade do Capitão
Até os homens mais bárbaros da história da humanidade tinham religiosidade. Talvez não fossem homens frequentadores de templos, mas detinham em suas mentes crença em situações com relações de causa e efeito que não se podem mostrar de forma racional ou empírica. Tinham alguma forma de superstição. Alguns estudiosos da Bíblia afirmam que a superstição infringe as leis ali descritas e está portanto em contradição com sua religião. No entanto a própria Bíblia aceita as superstições do povo judeu, uma vez que é um texto produzido por aquele ambiente cultural. Entre elas estão a questão da pureza no comportamento sexual, a recusa em consumir alimentos considerados impuros, o não contato com cadáveres, o próprio entendimento do que é pecado, a observância do sábado entre outras. Muitos destes conceitos culturais foram herdados pelo cristianismo que assimilou a crença em demônios, no juízo final, no arrebatamento ao final dos tempos.
Nesse pequeno artigo, faremos uma análise comentada das páginas 28 a 34 do livro de Nertan Macêdo “Lampião”, onde disserta sobre a religiosidade do Capitão Virgulino onde diz que tal religiosidade era a do “... sertão, a das Missões antigas, um catolicismo velho, feito de lendas, superstições, ladainhas, rosários, encomendações, ofícios de trevas, horas marianas, missões abreviadas e Lunário Perpétuo. A mesma dos seus antepassados que oravam no meio da noite e ao meio-dia, horas em que o Diabo se solta para perder o mundo. Sentimento de fundas raízes, no espaço e no tempo. No seu viver de perseguido, rezou sempre.”
A fé se manifesta de várias maneiras e pode estar vinculada a questões emocionais tais como reconforto em momentos de aflição desprovidos de sinais de futura melhora, relacionando-se com esperança e a motivos considerados moralmente nobres ou estritamente pessoais e egoístas. Pode estar direcionada a alguma razão específica que a justifique ou mesmo existir sem razão definida. E, também não carece absolutamente de qualquer tipo de argumento racional.
Em referência continuando nas palavras do escritor Nertan Macêdo "Quando o sol se empina e lhe vai em raios verticais sobre a cabeça, a sombra minguada aos pés, nos pousos, nas estradas, nos combates, ele verga os joelhos, genuflexo, no chão duro, pende a cabeça humilhada e, contrito, com a grande mão ossuda e escura a bater no peito, reza com fervor. Os companheiros, em torno, fitam-no cheios de respeito estranho. Se a cavalo perlustra erma estrada, quando o seu relógio marca as doze horas, ele se apeia e, genuflexo na areia quente do caminho, curva a cabeça a se comunicar com as misteriosas forças do Além. Mesmo no mais renhido tiroteio, abandona o fuzil e suplica a não sei que santos ou diabos lhe continuem a conservar o corpo fechado".
Era um homem cismado e mantinha suas crenças pessoais, talvez adquiridas em sua formação religiosa, assim como tantos sertanejos possuíam. Era também sectário enquanto não aceitava a religião africana. Dentre as muitas estórias do Capitão, conta-se que, numa noite, quando descansava da caminhada, ouviu toadas de candomblé no meio do mato. Não via aquela a sua religião. Aproximou-se de mansinho, surpreendendo alguns fiéis em torno de um pai-de-santo, um negro. Espantou-se, obrigando o feiticeiro a comer a galinha sacrificada, expulsou-os dos seus domínios, em nome da Virgem Maria e do Padre Cícero Romão Batista. No entanto, de uma feita, na povoação de Novo Amparo, arranchou-se numa casinha. Enquanto comia o almoço, fez arder nos cantos da sala quatro velas. Acreditava nas rezas-fortes que tornam o corpo imune às balas e perigos. Quem sabe se isso é verdade? Tantas estórias existem da vida do Capitão!
“A formação da gente sertaneja é baseada no início do descobrimento do Brasil e o Diabo veio nas caravelas de Cabral, trazendo o frade capelão Henrique de Coimbra. Com o frade desembarcou no Brasil um personagem até então desconhecido dos nativos — o Diabo — naquele longínquo ano de 1500 do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Numerosos disfarces, Lúcifer, Asmodeu ou que outro nome tenha, a réplica de Deus distribuiu-se pelos litorais da nova terra, repartindo-se, mais tarde, entre os bandos de penetração, com os quais chegou aos sertões do nordeste, nos tempos do povoamento. Conheceram-no, escamoso, repelente, indesejável, os índios e os negros, pela pregação terrificante dos missionários europeus, pela tradição verbal dos colonizadores lusitanos. Daí concluir Luiz da Câmara Cascudo: o Diabo brasileiro é o velho demônio português, "com os mesmos processos, seduções e pavores".
Oficialmente, todavia, a presença do Cão no Brasil só foi reconhecida e proclamada muitos anos depois da Descoberta. Cascudo, com razão, assinala tal reconhecimento e proclamação oficiais, no “Documentário da Visitação do Santo Ofício” — dois volumes da Bahia, um de Pernambuco —, os quais registram as comunicações do Tinhoso com amigas bruxas — "algumas sabendo até criá-los em vidrinhos, como filhinhos, tornando-se o familiar, espécie de diabinho doméstico, servo da feiticeira".
No país de Lampião, a figura clássica, a imagem tradicional do Diabo é mesmo aquela descrita pelo escritor potiguar: negra, magra, chifruda, de rabo, casco, espeto, assumindo tanto as formas de um bode, como as de um morcego, as de um porco, as de uma mosca, de um cachorro grande ou de um gato. Só não pode assumir, no universo nordestino, as formas dos animais abençoados, historicamente ligados ao nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo: o boi, o jumento, a ovelha, o galo.
Lampião sabia que a hora da aparição do Diabo era na meia-noite, pelas encruzilhadas desertas. Sabia que, para afugentá-lo, de nada valiam os rifles e punhais. As armas eram outras: a cruz, a oração, a água benta. Ruim e perverso se lhe afigurava o Tinhoso. Era ele quem procurava arrebanhar as almas do outro mundo às profundas do seu reino abismal, o que obrigava, também, a vigília constante de São Miguel Arcanjo, guardião celeste, juntamente com Nossa Senhora e todos os Santos do Céu.
Os avós de Lampião conheciam o Diabo de longa data. O Diabo que tem, em Portugal e no Brasil, tantos nomes quantas são as suas ciladas: tanso, carocho, enguiço, azango, onzoneiro, diacho, nica, careca, tição negro, coisa má, caipira, mafarrico, demo, malasartes, tatro, trado, porco sujo imundo, cão tinhoso, tisnado, sarapelho, fusco, cornudo, barzebu, satanás, mulambudo, esmulambado, cambito, dedo, moleque, fute, pé de meia, dêbo, pé prêto, pé de pato, futrico, figura, bode, capa verde, gato prêto, malino, sapucaio, pêro botelho, bicho, rapaz, tinhoso, capeta, capiroto, coxo, coisa suja, maioral, ele, maldito, demo, cafute, droga, excomungado drale, bode sujo, inimigo, mofino, maldito não sei quê diga, tição, taneco, temba, sarnento, encapetado, dianho...
Alguns títulos do Capiroto soam como apelidos de cangaceiros que as diabruras do cangaço apareciam aos olhos do povo nordestino como artes do Demo. Lampião, ele próprio, encarnava segundo alguns sertanejos, o Demônio em figura de gente.
Gustavo Barroso sintetiza bem a imagem do Tinhoso na alma sertaneja, com as seguintes palavras: “Geralmente, o demônio sertanejo, como o de todos os povos, é criado a sua imagem e semelhança. Anda, por isso, encourado como os vaqueiros, monta a cavalo, é especialista em velhacadas de cigano, gosta de cachaça, come picadinho de bode com jerimum, dança nos sambas, campeia o gado, faz a côrte às moças, e desaparece sempre com um estouro e um fedor terrível de enxofre ou de chifre queimado.”
O sertanejo herdou do português a velha crença nas chamadas horas abertas, meio-dia, meia-noite, fim da noite, fim do dia. Tão forte é a presença do Diabo na vida do sertão que até em sonho cangaceiro tinha mêdo dele. Assim foi o Capitão Lampião. Chei de crenças e pavores herdados nas heranças missionárias dos jesuítas, onde escreve Euclides da Cunha, mostrando que "O povoamento do Brasil fêz-se, intenso, com dom João III, precisamente no fastígio de completo desequilíbrio mental, quando todos os terrores da Idade Média tinham cristalizado no catolicismo peninsular".
Nertan Macêdo liricamente disserta “Esse catolicismo peninsular transplantou o Diabo ao mundo da solidão sertaneja e, anjo caído nas trevas, entrou de rijo na poesia cantadoresca, com suas gestas de bichos e cangaceiros. Afirmou-se como um participante ativo da ordem moral dos confinados, do caráter mesmo daquelas gentes, de quem o cronista admirável escreveu, certa vez: "Caldeadas a índole do colono e a impulsividade do indígena, tiveram, ulteriormente, o cultivo do próprio meio que lhes propiciou, pelo insulamento, a conservação dos atributos e hábitos avoengos, ligeiramente modificados apenas consoante as novas exigências da vida. E ali estão com as suas vestes características, os seus hábitos antigos, o seu estranho aferro às tradições mais remotas, o seu sentimento religioso levado até ao fanatismo, e o seu exagerado ponto de honra, e o seu folclore belíssimo de rimas de três séculos..."
Sim, como até hoje, missionários religiosos com sua autoridade imensa, continuam agora a desenhar em países atrasados na África e continuam nos rincões sertanejos, principalmente ainda nos cafundós do nordeste brasileiro, a montar suas teses de domínio da mente humana, com seus ensinos da imaginação, a figura do Diabo.
No Brasil, as Missões Católicas no sertão — as Santas Missões, assim como se deu no estado americano do norte, a California, envolvendo os índios, a derramar suas ladainhas a respeito do diabo e sua morada o inferno de fogo.
Tudo isso veio a alucinar o sertanejo crédulo; alucina-o, deprime-o, perverte-o. Conta-nos Nertan Macêdo que o ilustre sergipano Gilberto Amado, quando menino, no tempo da Guerra de Canudos, assistiu a uma dessas Missões na sua cidadezinha de Itaporanga da Ajuda. O relato é admirável: "Os frades engrolavam um vocabulário restritíssimo. Suas guturais rasgavam os ouvidos. Dom Amando, o chefe, o maioral, esguio, o nariz adunco, as faces cavernosas, os olhos fundos, tipo de monge tenebroso, movia-se com algo de espectral e quando, ao deixar a latada na sombra, chamava o capuz sobre a cabeça e tomava o ar de uma grande ave noturna.” - Fazia mêdo. Tudo isso era para amedrontar mesmo, pois a forma de trazer o povo crédulo para os átrios das igrejas era essa e foi aprendida pelos protestantes, que agora usam esse mesmo método para trazer seus crentes à fé.
Luís Cristóvão dos Santos, cronista do sertão pernambucano, natural de Pesqueira, conta-nos que ainda menino foi morar em Custódia, para onde se mudou a família, e que em uma Missão pregada polo famoso Frei Damião, ouviu o sermão do frade e narra o fato: "A princípio o taumaturgo. descreveu as delícias do céu, os querubins tocando harpa e uma nuvem de incenso vagando no azul, entre anjos e santos.
A multidão ouvia em silêncio, maravilhada e boquiaberta. Então, de repente, o frade mudou. Sacudiu os braços e soltou a. maldição terrível: — Homens sem Deus, mergulhados na lama do pecado. Amancebados! Mentirosos! Adúlteros! Arrependei-vos de vossos pecados. E passou a descrever as torturas do inferno. labaredas subiam, tochas ardendo, um relógio marcando: Sempre! Sempre! Nunca! Nunca!, que são as horas da Eternidade. E no meio da fornalha, o suplício do fumaceiro de enxôfre sufocando tudo.
Aí a multidão se abateu, lábios ciciavam. "Eu pecador, me confesso a Deus", almas tremendo de pavor, como corpos sacudidos de maleita. Junto de mim um matuto de Quitimbu tinha os olhos esgazeados. Cheguei mesmo a ver o suor lhe empastando a fronte morena. Uma velha traçou o xale com fôrça, cobrindo a cabeça tôda, temendo a baforada do Satanás. E ao meu lado, um soldado desatou o lenço que trazia ao pescoço, como se a coisa lhe abafasse a respiração. E, voltando-se para um companheiro, avisou que ia tomar uma "bicada" pois o cheiro do enxofre estava lhe sufocando a garganta. Depois frei Damião baixou os braços, serenou a voz. Nunca, na minha vida, vi silêncio maior. A praça parada, o povo de lábios chumbados, olhos fitos no frade. Só o vento inocente agitava de leve as bandeirinhas de papel de seda, que drapejavam acima das cabeças e do fogo do inferno. Então o frade rezou. E a multidão respondeu, contrita e imóvel, como, se ao invés de milhares de vozes, ali estivesse apenas uma só pessoa, postada diante do pregador famoso, na hora aguda do juízo final, prestando contas ao Altíssimo. Aquilo não era Custódia. Era o vale de Josafá"...
Essa foi a maneira que o sertanejo nordestino foi catequisado. O Capitão Virgulino Lampião, veio desse meio, onde o domínio religioso usava o Diabo e por isso a proteção contra ele teria que ser nas fortes rezas, nos escapulários com papeis escritos e costurados, como se costurado à alma do suplicante e usuário dos mesmos, fechando seus corpos de faca e bala, doenças, pobreza, contra injustiças, contra mau-olhado e inveja. Esse foi e ainda é o sertão de Lampião.
Raul Meneleu Mascarenhas
Fonte: http://meneleu.blogspot.com.br/2015/01/a-religiosidade-do-capitao.html
06 outubro 2014
"Joãozinho Retratista e os Cangaceiros", por Robério Santos
"Joãozinho Retratista e os Cangaceiros"
Falar em Joãozinho Retratista sem falar de sua genialidade fotográfica desde a década de 10 até a de 70 seria como falar de Chaplim sem enunciar a importância dos seus filmes. Herdeiro não de uma fortuna, mas de um maquinário fotográfico do século XIX, Joãozinho começou a vida ajudando seu padrinho itabaianense, Miguel Teixeira da Cunha, primeiro retratista oficial de Sergipe. João de Germano Venta na sua juventude carregava o aparelho de congelar o tempo pra lá e pra cá com seu padrinho, este ato seria sua herança eterna (grande trabalhador) e seu grande prêmio veio junto ao casamento dele com Maria Osana Teixeira em 1918 no mesmo dia que Zeca Mesquita subia ao altar com sua primeira esposa, Bernadete, filha do chefe político local Manuel Batista Itajahy.
Joãozinho abraçou a fotografia, aposentou a antiga Photo Nacional (nome este dado por causa da inscrição na câmera de Teixeirinha, “National Camera”) e fundou a Photo Lobo. A década de 20 foi muito movimentada na vida de Joãozinho. Seu local de trabalho era o mesmo que Teixeirinha começara no século anterior numa Itabaiana ainda Villa, em 1872. Na sua porta ficava antes o Mercado dos Cabaús, depois a feira muda de local (foi para a praça da Igreja Matriz) com a morte de Itajahy e em 1927 ela volta para a praça Santo Antônio com a inauguração do Mercado Municipal por “Ozin” Dutra (assim Volta Seca o chamava), hoje o chamado Mercado Municipal Zezé de Bevenuto.
Nesta mesma época, Lampião, Sabino e seu bando invadiam Limoeiro e faziam as famosas fotos da multidão a pé e a cavalo. Tempos antes o grupo foi fotografado em Juazeiro do Norte, na visita ao Padre Cícero para o combate que nunca ocorreu à Coluna “Peste”. Em 1928 Lampião começa a se aproximar de Sergipe, os jornais anunciam a presença dele pelo oeste, vindo da Bahia. Ainda não havia chegado a hora de entrar no minúsculo Estado, mas que foi um dos mais importantes neste período sangrento e místico do cangaceirismo.
1929 chega e com ele a notícia oficial nos tabloides da capital Aracaju: Lampião e seu bando está em Sergipe! Ele entrara por Carira no dia 1o de março deste ano e com uma “carta de paz” se deixa ver de corpo aberto pela população local fazendo com que as pessoas o descrevesse perfeitamente até poucos anos atrás. Seus passos eram difíceis de serem detectados, assim só temos fragmentos de suas passagens. Eles ficavam escondidos nos matos, em ranchos, em cidades pequenas (por pouco tempo) mas não temos um diário dele por Sergipe exatamente sobre todos os dias e o que fez aqui durante todo o tempo que ficou. Sabe-se que em 1929 Lampião escolhera Sergipe para ser sua “morada”, não se sabe a razão, mas ele estava aqui. Talvez em Sergipe ele tivesse mais amigos que inimigos... Antônio Caixeiro, pai de Eronides de Carvalho pode ser um bom exemplo.
Itabaiana é avisada por tropeiros carirenses da presença do cangaceiro pelas proximidades. Joãozinho, o retratista e não o Veneno, um curioso nato, diz em voz alta que se tivesse a oportunidade de fotografar os cangaceiros ele iria. As pessoas enxergavam isso como um chiste, vindo de uma pessoa muito brincalhona como está no sangue ceboleiro. Capela, cidade que mantinha bons negócios com Itabaiana é telegrafada e avisada. Quem recebe a notícia lá em Capela é Zózimo Lima, chefe dos Correios local. Por volta das 16h um grupo conversava lorotas na porta da Farmácia Mendonça e Zózimo estava entre os moços, foi quando um de seus auxiliares chega com a devida notícia vinda de Itabaiana. O telegrama dizia:
Virgulino, partindo de Cariri(1) perambula norte Sergipe, visitará capelenses.
Voltando a Itabaiana, a tensão era enorme. A jovem Tethis Nunes se trancava em casa com medo dos cangaceiros. Os mais valentes diziam que se eles entrassem seriam recebidos a bala. A célebre Maria Carreiro ainda pegou seu cavalo e como uma Joana D’Arc solitária fez a ronda a fim de não deixar que fôssemos pegos de surpresa. Joãozinho Retratista de arma só tinha a câmera e ela estava preparada.
Um dia calmo de domingo como tantos outros, 31 de março, Joãozinho é procurado em sua casa na Praça da Santa Cruz (atual João Pessoa) por Etelvino Mendonça e Zeca Mesquita, este, dono do único carro da cidade, por isso a probabilidade enorme de Zeca ter participado da façanha. O papo foi dos mais interessantes, Etelvino descreve exatamente o que o retratista estava esperando há meses: eles iam até o Pinhão fotografar o bando de Lampião.
Virgulino chegara na surdina no dia 28 de março de 1929, cansado e desnutrido na fazenda do chefe político de Itabaiana. Lembra Sila décadas depois que Etelvino era cabra muito valente, pois para ser amigo de cangaceiros tinha que ter sangue no olho. A polícia de Carira não sabia se Lampião havia saído de Sergipe ou se estava nas proximidades, mas já estavam se movimentando na união de diversos policiais para a formação de algumas volantes que foram de extrema importância no combate aos cangaceiros no Estado. Lampião e nove de seus mais fortes asseclas descansam com um olho aberto e outro fechado. Dentre eles estava o itabaianense Volta Seca (provavelmente quem indicou o local da fazenda e do conhecido Coronel) e o Diabo Loiro, Corisco, que passara um tempo em Sergipe antes de entrar para o Cangaço.
Joãozinho acorda na segunda-feira nervoso. Sem contar aos familiares o que iria fazer. Ele separa seu material fotográfico e desmonta sua câmera caixão de mais ou menos cinco quilos, pega algumas fotografias já reveladas de Itabaiana e espera Etelvino e Zeca Mesquita chegarem para fazerem a viagem. Por volta das dez horas da manhã chegam à porta de Joãozinho, se acomodam no carro de Zeca e seguem viagem em direção a São Paulo (Frei Paulo). No caminho Etelvino adianta a Joãozinho que os cangaceiros estão mansos, não se sabe porque eles estão relaxados e queriam fazer um retrato para enviar para alguns familiares. Como só Joãozinho era conhecido retratista da região, Etelvino resolveu convidar o jovem de pouco menos 33 anos.
A viagem não era das melhores, chegando em São Paulo pegaram uma outra estrada (comparada a que temos hoje em dia) em direção ao Pinhão, pois a estrada oficial entre São Paulo e Mocambo só seria construída em 1932 segundo o escritor de Almas Torturadas, J. Rabelo. Chegando lá, Joãozinho já avistou espalhado pelo terreiro alguns cangaceiros proseando e de arma em punho. Alguns se alertaram, entraram e avisaram ao Capitão que o Etelvino havia chegado. Homem de poucas palavras, Lampião se aproxima de João Teixeira Lobo (aqui merece ter seu nome citado por inteiro), estende a mão, percebe a câmera na mão de Joãozinho, ensaia um sorriso e pergunta.
- Vai deixá o retrato bonito viu? Meus minino tão cansado e não querem ser molestados com demora. Vai demorá?
- Não, Lampião, é o tempo de arrumar o equipamento.
Virgulino deu a volta, foi conversar com Etelvino e Zeca Mesquita (este que era forte empresário local) e não se sabe se alguma quantia foi entregue ao cangaceiro. O povoado Pinhão estava longe, era quase visível a olho nu as pequenas casas que se fixavam perto de uma pequena Capela, também a povoação Mocambo era vista. Estavam numa fortaleza, um local alto e privilegiado que evitaria um ataque surpresa.
Por volta das 15h Lampião com um pequeno apito soa o alarme, já havia sido instruído por Joãozinho sobre o local ideal para o retrato (por causa da luz do sol). Pede educadamente a seus companheiros que se aproximem a uma das casas que formava o complexo da fazenda. Eram portas altas, parede fixa e que servia para guardar ferragens, sacos de ração e outras coisas. Antes de se aprontarem, Lampião dá uma sondada na câmera para ver se era realmente de tirar fotos ou era uma arma escondida. Curioso e desconfiado chegou à conclusão que era de confiança. Joãozinho começa a focar os homens estranhos e debaixo do pano vermelho, aquele grupo amedrontador de cangaceiros se apresentava de cabeça para baixo no vidro fosco do fundo. Eles estavam em formação futebolística: cinco de pé atrás; cinco na frente com um joelho ao chão. O sol estava forte e alguns fechavam os olhos por causa do clarão. Lampião era o primeiro da esquerda, ajoelhado como os outros quatro, Volta Seca era o menorzinho de pé atrás.
Joãozinho pega o compartimento de madeira com a placa de vidro sensibilizada dentro, coloca no repartimento da câmera, fecha o obturador, puxa a proteção para deixar a placa de vidro na posição e anuncia a fotografia. Haviam alguns meninos curiosos na varanda da fazenda e Etelvino que não se atreveu entrar na fotografia, fica apenas de olho em todo processo. Voltando à foto, Joãozinho toma um susto ao ver que todos estavam com as armas apontadas para ele. Nisso Joãozinho com toda coragem do mundo indaga.
- Só faço a chapa se vocês virarem um pouco para o lado essas armas, não gosto de violência.
Luiz Pedro solta uma piada.
- Oxi ômi e esse canhão aí não atira foto?
E todos caíram numa risada, até Joãozinho.
Preparado o retrato, é dado o sinal. Joãozinho percebe um furo minúsculo no lado direito do fole, furo este confirmado em outras fotografias e até no remendo na câmera, confirmado por mim quase 80 anos depois. Mas, ele ficou com medo de dizer que a fotografia poderia não sair boa. Colocou o dedo onde entrava um pouco de luz e rezando (agora mais calmo por ver as armas um pouco mais de lado) para que tudo desse certo ele dispara e faz a foto. Na revelação, justamente Lampião saiu com menos nitidez. Ainda fotografou Etelvino Sozinho, também fotografou um grupo de pessoas no carro com dois cangaceiros juntos, o grupo completo com as pessoas e também fotografou individualmente alguns cangaceiros, assim como faria dias depois Felino Bonfim em Saco do Ribeiro (Povoado de Itabaiana) e meses depois Eronides de Carvalho em Jaramataia, ainda em Sergipe. Lampião tomara gosto pelo retrato desde 1926 em Juazeiro.
Acabada a sessão de fotos, Lampião se despede, avisa que quer uma cópia dos retratos e que é só avisar que ele manda alguém pegar em Itabaiana mesmo. Joãozinho presenteia Virgulino com algumas fotos de Itabaiana e pede para ele não ir lá, tudo que ele quiser ele pode ter sem a necessidade de amedrontar um povo simples e pobre. Tudo certo, Joãozinho volta todo feliz para casa, revela as fotos e dias depois entrega-as a Etelvino e nenhuma delas é vista por muito tempo. Mas, Terezinha Andrade, filha de Joãozinho Retratista sempre viu essas fotos ainda nas chapas de vidro, elas eram guardadas com um carinho enorme pelo velho pai.
A história virou lenda em Itabaiana, nenhuma prova concreta era vista aos olhos de Itabaianenses ou de outra região. Começo então a pesquisar a história de Itabaiana e logo de cara, em 2007 ouço pela primeira vez partes desta história que acabei de contar vinda das filhas de Joãozinho. Delas recebi centenas de fotografias, mas, do cangaço, só a lembrança.
Em 2011 localizo a primeira fotografia, não estava em boa definição mas era um grupo de pessoas numa fazenda e dois deles com cara de jagunços estavam sentados no automóvel. Batia com a descrição, mas ainda era pouco. Consegui a segunda, o grupo na mesma casa, agora com a presença de Joãozinho Retratista na fotografia. Quem havia fotografado? Era uma fotografia do mesmo dia. Consegui estes retratos originais com uma qualidade incrível e continuei minha busca. Neste mesmo ano publico a biografia “Joãozinho Retratista - O Mestre da Fotografia” e trago o caso pela primeira vez ao público.
2013 chega e com ele muitas ideias novas e a chance de publicar com Vladimir Souza Carvalho um dos livros mais esperados da história de Itabaiana, o “Álbum de Itabaiana” contendo 180 retratos feitos por Teixeirinha, Joãozinho Retratista e Percilio Andrade. Publico as duas fotos que havia encontrado, mas ainda faltava a cereja do bolo. Em setembro deste ano me chega à porta Abércio Gois e com ele um punhado de fotografias antigas de nossa Itabaiana. Amigo de longas datas ele me presenteia com um pedaço de nossa cidade e para minha surpresa eu me deparo com a foto mais incrível e que coroava totalmente minha pesquisa: a foto do bando de Lampião feita por Joãozinho. Era um retrato simples de 17,5 x 11,5 cm colado numa base de papelão de 24 x 18,5 cm, em Sépia e com alguns pedaços já faltando. Mesmo assim, foi considerada pelos pesquisadores como um dos maiores achados fotográficos da história do cangaço.
Estamos hoje fazendo tudo com ela, desde Rubens Antonio a colori-la até decifrar detalhes escondidos nos pontos mais estragados dela. Nas costas do retrato está a grafia do fotógrafo (onde foi feita a analise grafotécnica e comprovado ser a letra de Joãozinho) a data 10 de abril de 1929 e hoje sabemos que na foto estão de pé: (Supostamente) Arvoredo, Volta Seca, Mariano, Labareda, Ezequiel. De joelhos: Lampião, Virgínio, Calais, Luiz Pedro e Corisco.
Ainda faltam encontrar fotos deste dia incrível, quem sabe possamos ter esse privilégio ainda nesta existência, pois, no dia que eu encontra-las, não ficarão em uma gaveta. Obrigado, Joãozinho por ter tido a coragem e a oportunidade que poucos tiveram.
1“Cariri” é na verdade “Carira” e Zózimo alertou toda região de Dores a Propriá. Ninguém acreditou.
Robério Santos, Membro da Academia Itabaianense de Letras
Fonte: O Cangaço em Itabaiana Grande
Falar em Joãozinho Retratista sem falar de sua genialidade fotográfica desde a década de 10 até a de 70 seria como falar de Chaplim sem enunciar a importância dos seus filmes. Herdeiro não de uma fortuna, mas de um maquinário fotográfico do século XIX, Joãozinho começou a vida ajudando seu padrinho itabaianense, Miguel Teixeira da Cunha, primeiro retratista oficial de Sergipe. João de Germano Venta na sua juventude carregava o aparelho de congelar o tempo pra lá e pra cá com seu padrinho, este ato seria sua herança eterna (grande trabalhador) e seu grande prêmio veio junto ao casamento dele com Maria Osana Teixeira em 1918 no mesmo dia que Zeca Mesquita subia ao altar com sua primeira esposa, Bernadete, filha do chefe político local Manuel Batista Itajahy.
Joãozinho abraçou a fotografia, aposentou a antiga Photo Nacional (nome este dado por causa da inscrição na câmera de Teixeirinha, “National Camera”) e fundou a Photo Lobo. A década de 20 foi muito movimentada na vida de Joãozinho. Seu local de trabalho era o mesmo que Teixeirinha começara no século anterior numa Itabaiana ainda Villa, em 1872. Na sua porta ficava antes o Mercado dos Cabaús, depois a feira muda de local (foi para a praça da Igreja Matriz) com a morte de Itajahy e em 1927 ela volta para a praça Santo Antônio com a inauguração do Mercado Municipal por “Ozin” Dutra (assim Volta Seca o chamava), hoje o chamado Mercado Municipal Zezé de Bevenuto.
Nesta mesma época, Lampião, Sabino e seu bando invadiam Limoeiro e faziam as famosas fotos da multidão a pé e a cavalo. Tempos antes o grupo foi fotografado em Juazeiro do Norte, na visita ao Padre Cícero para o combate que nunca ocorreu à Coluna “Peste”. Em 1928 Lampião começa a se aproximar de Sergipe, os jornais anunciam a presença dele pelo oeste, vindo da Bahia. Ainda não havia chegado a hora de entrar no minúsculo Estado, mas que foi um dos mais importantes neste período sangrento e místico do cangaceirismo.
1929 chega e com ele a notícia oficial nos tabloides da capital Aracaju: Lampião e seu bando está em Sergipe! Ele entrara por Carira no dia 1o de março deste ano e com uma “carta de paz” se deixa ver de corpo aberto pela população local fazendo com que as pessoas o descrevesse perfeitamente até poucos anos atrás. Seus passos eram difíceis de serem detectados, assim só temos fragmentos de suas passagens. Eles ficavam escondidos nos matos, em ranchos, em cidades pequenas (por pouco tempo) mas não temos um diário dele por Sergipe exatamente sobre todos os dias e o que fez aqui durante todo o tempo que ficou. Sabe-se que em 1929 Lampião escolhera Sergipe para ser sua “morada”, não se sabe a razão, mas ele estava aqui. Talvez em Sergipe ele tivesse mais amigos que inimigos... Antônio Caixeiro, pai de Eronides de Carvalho pode ser um bom exemplo.
Itabaiana é avisada por tropeiros carirenses da presença do cangaceiro pelas proximidades. Joãozinho, o retratista e não o Veneno, um curioso nato, diz em voz alta que se tivesse a oportunidade de fotografar os cangaceiros ele iria. As pessoas enxergavam isso como um chiste, vindo de uma pessoa muito brincalhona como está no sangue ceboleiro. Capela, cidade que mantinha bons negócios com Itabaiana é telegrafada e avisada. Quem recebe a notícia lá em Capela é Zózimo Lima, chefe dos Correios local. Por volta das 16h um grupo conversava lorotas na porta da Farmácia Mendonça e Zózimo estava entre os moços, foi quando um de seus auxiliares chega com a devida notícia vinda de Itabaiana. O telegrama dizia:
Virgulino, partindo de Cariri(1) perambula norte Sergipe, visitará capelenses.
Voltando a Itabaiana, a tensão era enorme. A jovem Tethis Nunes se trancava em casa com medo dos cangaceiros. Os mais valentes diziam que se eles entrassem seriam recebidos a bala. A célebre Maria Carreiro ainda pegou seu cavalo e como uma Joana D’Arc solitária fez a ronda a fim de não deixar que fôssemos pegos de surpresa. Joãozinho Retratista de arma só tinha a câmera e ela estava preparada.
Um dia calmo de domingo como tantos outros, 31 de março, Joãozinho é procurado em sua casa na Praça da Santa Cruz (atual João Pessoa) por Etelvino Mendonça e Zeca Mesquita, este, dono do único carro da cidade, por isso a probabilidade enorme de Zeca ter participado da façanha. O papo foi dos mais interessantes, Etelvino descreve exatamente o que o retratista estava esperando há meses: eles iam até o Pinhão fotografar o bando de Lampião.
Virgulino chegara na surdina no dia 28 de março de 1929, cansado e desnutrido na fazenda do chefe político de Itabaiana. Lembra Sila décadas depois que Etelvino era cabra muito valente, pois para ser amigo de cangaceiros tinha que ter sangue no olho. A polícia de Carira não sabia se Lampião havia saído de Sergipe ou se estava nas proximidades, mas já estavam se movimentando na união de diversos policiais para a formação de algumas volantes que foram de extrema importância no combate aos cangaceiros no Estado. Lampião e nove de seus mais fortes asseclas descansam com um olho aberto e outro fechado. Dentre eles estava o itabaianense Volta Seca (provavelmente quem indicou o local da fazenda e do conhecido Coronel) e o Diabo Loiro, Corisco, que passara um tempo em Sergipe antes de entrar para o Cangaço.
Joãozinho acorda na segunda-feira nervoso. Sem contar aos familiares o que iria fazer. Ele separa seu material fotográfico e desmonta sua câmera caixão de mais ou menos cinco quilos, pega algumas fotografias já reveladas de Itabaiana e espera Etelvino e Zeca Mesquita chegarem para fazerem a viagem. Por volta das dez horas da manhã chegam à porta de Joãozinho, se acomodam no carro de Zeca e seguem viagem em direção a São Paulo (Frei Paulo). No caminho Etelvino adianta a Joãozinho que os cangaceiros estão mansos, não se sabe porque eles estão relaxados e queriam fazer um retrato para enviar para alguns familiares. Como só Joãozinho era conhecido retratista da região, Etelvino resolveu convidar o jovem de pouco menos 33 anos.
A viagem não era das melhores, chegando em São Paulo pegaram uma outra estrada (comparada a que temos hoje em dia) em direção ao Pinhão, pois a estrada oficial entre São Paulo e Mocambo só seria construída em 1932 segundo o escritor de Almas Torturadas, J. Rabelo. Chegando lá, Joãozinho já avistou espalhado pelo terreiro alguns cangaceiros proseando e de arma em punho. Alguns se alertaram, entraram e avisaram ao Capitão que o Etelvino havia chegado. Homem de poucas palavras, Lampião se aproxima de João Teixeira Lobo (aqui merece ter seu nome citado por inteiro), estende a mão, percebe a câmera na mão de Joãozinho, ensaia um sorriso e pergunta.
- Vai deixá o retrato bonito viu? Meus minino tão cansado e não querem ser molestados com demora. Vai demorá?
- Não, Lampião, é o tempo de arrumar o equipamento.
Virgulino deu a volta, foi conversar com Etelvino e Zeca Mesquita (este que era forte empresário local) e não se sabe se alguma quantia foi entregue ao cangaceiro. O povoado Pinhão estava longe, era quase visível a olho nu as pequenas casas que se fixavam perto de uma pequena Capela, também a povoação Mocambo era vista. Estavam numa fortaleza, um local alto e privilegiado que evitaria um ataque surpresa.
Por volta das 15h Lampião com um pequeno apito soa o alarme, já havia sido instruído por Joãozinho sobre o local ideal para o retrato (por causa da luz do sol). Pede educadamente a seus companheiros que se aproximem a uma das casas que formava o complexo da fazenda. Eram portas altas, parede fixa e que servia para guardar ferragens, sacos de ração e outras coisas. Antes de se aprontarem, Lampião dá uma sondada na câmera para ver se era realmente de tirar fotos ou era uma arma escondida. Curioso e desconfiado chegou à conclusão que era de confiança. Joãozinho começa a focar os homens estranhos e debaixo do pano vermelho, aquele grupo amedrontador de cangaceiros se apresentava de cabeça para baixo no vidro fosco do fundo. Eles estavam em formação futebolística: cinco de pé atrás; cinco na frente com um joelho ao chão. O sol estava forte e alguns fechavam os olhos por causa do clarão. Lampião era o primeiro da esquerda, ajoelhado como os outros quatro, Volta Seca era o menorzinho de pé atrás.
Joãozinho pega o compartimento de madeira com a placa de vidro sensibilizada dentro, coloca no repartimento da câmera, fecha o obturador, puxa a proteção para deixar a placa de vidro na posição e anuncia a fotografia. Haviam alguns meninos curiosos na varanda da fazenda e Etelvino que não se atreveu entrar na fotografia, fica apenas de olho em todo processo. Voltando à foto, Joãozinho toma um susto ao ver que todos estavam com as armas apontadas para ele. Nisso Joãozinho com toda coragem do mundo indaga.
- Só faço a chapa se vocês virarem um pouco para o lado essas armas, não gosto de violência.
Luiz Pedro solta uma piada.
- Oxi ômi e esse canhão aí não atira foto?
E todos caíram numa risada, até Joãozinho.
Preparado o retrato, é dado o sinal. Joãozinho percebe um furo minúsculo no lado direito do fole, furo este confirmado em outras fotografias e até no remendo na câmera, confirmado por mim quase 80 anos depois. Mas, ele ficou com medo de dizer que a fotografia poderia não sair boa. Colocou o dedo onde entrava um pouco de luz e rezando (agora mais calmo por ver as armas um pouco mais de lado) para que tudo desse certo ele dispara e faz a foto. Na revelação, justamente Lampião saiu com menos nitidez. Ainda fotografou Etelvino Sozinho, também fotografou um grupo de pessoas no carro com dois cangaceiros juntos, o grupo completo com as pessoas e também fotografou individualmente alguns cangaceiros, assim como faria dias depois Felino Bonfim em Saco do Ribeiro (Povoado de Itabaiana) e meses depois Eronides de Carvalho em Jaramataia, ainda em Sergipe. Lampião tomara gosto pelo retrato desde 1926 em Juazeiro.
Acabada a sessão de fotos, Lampião se despede, avisa que quer uma cópia dos retratos e que é só avisar que ele manda alguém pegar em Itabaiana mesmo. Joãozinho presenteia Virgulino com algumas fotos de Itabaiana e pede para ele não ir lá, tudo que ele quiser ele pode ter sem a necessidade de amedrontar um povo simples e pobre. Tudo certo, Joãozinho volta todo feliz para casa, revela as fotos e dias depois entrega-as a Etelvino e nenhuma delas é vista por muito tempo. Mas, Terezinha Andrade, filha de Joãozinho Retratista sempre viu essas fotos ainda nas chapas de vidro, elas eram guardadas com um carinho enorme pelo velho pai.
A história virou lenda em Itabaiana, nenhuma prova concreta era vista aos olhos de Itabaianenses ou de outra região. Começo então a pesquisar a história de Itabaiana e logo de cara, em 2007 ouço pela primeira vez partes desta história que acabei de contar vinda das filhas de Joãozinho. Delas recebi centenas de fotografias, mas, do cangaço, só a lembrança.
Em 2011 localizo a primeira fotografia, não estava em boa definição mas era um grupo de pessoas numa fazenda e dois deles com cara de jagunços estavam sentados no automóvel. Batia com a descrição, mas ainda era pouco. Consegui a segunda, o grupo na mesma casa, agora com a presença de Joãozinho Retratista na fotografia. Quem havia fotografado? Era uma fotografia do mesmo dia. Consegui estes retratos originais com uma qualidade incrível e continuei minha busca. Neste mesmo ano publico a biografia “Joãozinho Retratista - O Mestre da Fotografia” e trago o caso pela primeira vez ao público.
2013 chega e com ele muitas ideias novas e a chance de publicar com Vladimir Souza Carvalho um dos livros mais esperados da história de Itabaiana, o “Álbum de Itabaiana” contendo 180 retratos feitos por Teixeirinha, Joãozinho Retratista e Percilio Andrade. Publico as duas fotos que havia encontrado, mas ainda faltava a cereja do bolo. Em setembro deste ano me chega à porta Abércio Gois e com ele um punhado de fotografias antigas de nossa Itabaiana. Amigo de longas datas ele me presenteia com um pedaço de nossa cidade e para minha surpresa eu me deparo com a foto mais incrível e que coroava totalmente minha pesquisa: a foto do bando de Lampião feita por Joãozinho. Era um retrato simples de 17,5 x 11,5 cm colado numa base de papelão de 24 x 18,5 cm, em Sépia e com alguns pedaços já faltando. Mesmo assim, foi considerada pelos pesquisadores como um dos maiores achados fotográficos da história do cangaço.
Estamos hoje fazendo tudo com ela, desde Rubens Antonio a colori-la até decifrar detalhes escondidos nos pontos mais estragados dela. Nas costas do retrato está a grafia do fotógrafo (onde foi feita a analise grafotécnica e comprovado ser a letra de Joãozinho) a data 10 de abril de 1929 e hoje sabemos que na foto estão de pé: (Supostamente) Arvoredo, Volta Seca, Mariano, Labareda, Ezequiel. De joelhos: Lampião, Virgínio, Calais, Luiz Pedro e Corisco.
Ainda faltam encontrar fotos deste dia incrível, quem sabe possamos ter esse privilégio ainda nesta existência, pois, no dia que eu encontra-las, não ficarão em uma gaveta. Obrigado, Joãozinho por ter tido a coragem e a oportunidade que poucos tiveram.
1“Cariri” é na verdade “Carira” e Zózimo alertou toda região de Dores a Propriá. Ninguém acreditou.
Robério Santos, Membro da Academia Itabaianense de Letras
Fonte: O Cangaço em Itabaiana Grande
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