05 janeiro 2012

Depoimento de Maria José de Oliveira, de Itiúba

Maria José de Oliveira e Robério Pinto de Azeredo
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Depoimento de Maria José de Oliveira, aos 86 anos, de Itiúba:
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Meu nome é Maria José de Souza... Solteira, eu era Maria José de Oliveira... Nasci e cresci na Fazenda Campinhos... Eu tinha somente seis anos de idade, mas foi um acontecimento tão assim que eu lembro muito bem tudo... lembro como se fosse ontem... Em 1931, não lembro o mês, eu estava na casa do meu pai, com a minha mãe e a minha irmã... A minha mãe tinha acabado de preparar o almoço... Lá comiam dezessete pessoas... Naquele dia, ela tinha preparado uma leitoa... farofa... quando chegaram aqueles homens, a cavalo... Estavam todos montados... Tinha uma mulher com eles... O que era o chefe deles... dava para ver que era ele quem mandava... entrou na casa e foi até um móvel que tinha uma gaveta... Ali ficavam guardadas as coisas da família... Ele pegou uma faca e começou a forçar a gaveta para abrir... A minha mãe, Abrosina Maria de Oliveira, não deixou... Chegou perto e pediu a ele que não arrombasse a gaveta... Que ela daria um jeito naquilo... O meu pai era quem sabia onde estava a chave, mas ele tinha saído para ir na casa da minha avó Elvira... que era mãe dele... Então, minha mãe pediu à minha irmã, Edite Maria de Oliveira, que casada virou Edite Maria Brasileiro, que fosse chamar meu pai... E ele veio logo... Enquanto isto, os cangaceiros pediram à minha mãe para botar o almoço para eles... Como tinha a leitoa pronta, com farofa, minha mãe foi colocando a comida no prato e passando para eles... Ele lembro de eu ficar com medo, atrás dela, enquanto ela se mexia rápido pra colocar o almoço... Eles estavam comendo quando o meu pai chegou... Ele se apresentou e foi pegar a chave... Abriu a gaveta e os homens pegaram tudo... Tinha muito dinheiro... muitos réis... e anéis e cordões de ouro... Pois eles levaram o dinheiro e os ouros... Meu pai conversava com eles, quando eles comiam... Ele perguntou a um homem como chamava o nome dele... Ele disse que era Volta–Seca... E o meu pai perguntou como se chamava a mulher... e ele disse que ela se chamava Iolanda...
Eles, então, foram saindo com os pratos na mão... comendo... Levaram os pratos... Então, eles montaram e foram até a casa da minha avó Felícia, mãe da minha mãe, que eles tinham sabido que tinha ouro... Mas ela negou... Eles exigiram... e ela negou que tivesse... Aí bateram nela muito...
Então, pediram ao meu primo Anjo... o Ângelo... para levarem eles até o Ariri... É que lá morava o Manezão, e eles tinham informação que ele também tinha muito ouro... que era rico... Saíram daqui e seguiram em direção a Pintada... que é caminho de Ariri... Mas o meu primo, não sei como, conseguiu desviar eles em direção ao Umbuzeiro... Acabaram deixando meu primo para trás...
A minha mãe, depois, foi um pouco no rastro deles e disse...
-Olha um prato ali!
Eles foram comendo, acabando, e jogando os pratos pelo caminho...

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25 de maio de 1928

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25 de maio de 1928, no “Diario de Noticias”:
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Dr. Luiz do Prado Ribeiro
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A endemia do cangaceiro!

“Os sertões, diz–nos o ex–delegado regional dr. Prado Ribeiro, continúam sem garantias”
O dr. Prado Ribeiro, quando occorreu a tragedia de Jurema, achava–se proximo ao local. S.s. chegado a esta capital foi ouvido pela nossa reportagem:
– O sertão bahiano, como eu tenho sempre affirmado, continúa sem garantias.
A situação é invariavelmente a mesma de todos os tempos. O que se disser em contrario é mentira, é intrugisse, como se diz na giria carioca. Nada se tem feito até agora para melhorar esse estado de coisas.
Tenho lido muita mensagem bonita, ouvido muita rethorica, sabido de muita promessa, mas, o problema está insoluvel.
O banditismo na Bahia já é uma endemia, como a febre amarella, a politicagem e outras pragas maldicyas que dissangram e flagellam, dolorosamente, a decantada Moema de seios titanicos.

Quando se quer extinguir–se, combate–se!

O dr. Góes Calmon – continuou – começou a fazer alguma coisa quando me incumbiu de exterminar o banditismo numa das mais ricas regiões do Estado, fronteiriça aos Estados de Piahy e Goyaz.
O que fiz consta do meu relatorio o qual, não sei por que, nunca foi publicado. Nelle enumero os bandidos que morreram em combate, resistindo á força publica e os que se regeneravam pelo trabalho na localidade em que residiam.
Appéllo para os viajantes commerciaes desta praça para que digam se de facto essa região após a minha acção não ficou policiada e completamente pacificada.
Só comprehendo extincção do banditismo assim a ferro e fogo, agarrando–se o banditismo na sua toca e o eliminando, caso elle venha a resistir, o que é um bem para a sociedade.
A acção é essa: não dar treguas nem guarida aos bandidos até que fujam ou morram nas refregas da liuta armada.

Medidas indispensaveis


– Como se livrar os sertões da jagunçada?
– Se a minha experiencia lograsse ser ouvida, eu faria, aqui, algumas considerações suggerindo mesmo, medidas que supponho melhoraram muito esse estado de coisas quando não resolverssem cabalmente o referido problema.
O dr. Madureira de Pinho, titular da Secretaria de Policia, a quem devo muitas distincções pela sua fidalguia de trato bem poderia chamar a si essa benemerencia, atacando de frente o banditismo e o estirpando do Estado; iniciando para o sertão uma éra promissora de paz, de bem estar e de tranquilidade absoluta.
Duas grandes medidas administrativas, entretanto, são preliminarmente necessarias, sem o que tudo será de balde: o aperfeiçoamento da policia militar com os expurgo dos maus elementos e o exterminio dos nucleos de homens armados pertencentes aos chefes politicos municipaes, os quaes são ameaças constantes ao proprio governo do Estado, como no caso de Lençóes, por exemplo.
Alem disso é preciso adaptar–se a nossa força armada ás regiões do nosso vasto “hinterland”, creando–se a policia volante, em diversas regiões, apetrechada e montada para se deslocar com facilidade e attender as necessidades urgentes em outros pontos.
– Ha mais, quanto á tropa: o alliciamento sem selecção, “pret” insignificante e difficil de ser recebido, o que difficulta as diligencias, trabalhando com má vontade.

Uma praxe má adoptada


– Quero me referir á praxe adoptada, numa imitação do que faziam os celebres “batalhões patrioticos”: a policia toma, á força, os animaes e arreios dos sertanejos. Ao commandante da Policia, um brioso official, meu velho camarada, communico o facto, do qual ignoram as auctoridades superiores.
As façanhas de Antonio Souza é uma prova da deficiencia de nossa policia a e de que o banditismo, aqui, domina todas as zonas.
São dezenas de desgraçados que diariamente caem, varados por balas assassinas ao mando de politicos e bandidos desapiedados. E vem logo á mente a pergunta seguinte: – A policia o que fez?... Nada, por que nada poderia fazer... Muitas vezes nem a imprensa chega a saber o que se passara, pois a propria policia não tem nenhum interesse que essas noticias sejam divulgadas. Finalmente o sertão é ainda o de cem annos atraz, com a differença que os homens estão peores.
Antonio Souza, official da policia pernambucana!
– Uma prova da degradação dos nossos homens publicos: o governo de Pernambuco commissionára Antonio Souza como official da sua policia.
Mesmo conhecendo os precedentes desse criminoso, pois o seu chefe de policia dr. Lauro Leão disso fôra scientificado em Janeiro.

Falando franco como amigo leal


Concluiu o dr. Prado Ribeiro:
– Sou dos que tem grande esperança na administração do dr. Vital Soares. Creio, com sinceridade, que, se elle conseguir extirpar alguns males enraizados em nossa terra, fará um optimo governo, já, pois, pelo seu descortinio intellectual, já porque elle vem das predicas do velho Ruy, as quaes têm sido tambem o meu phanal, durante estes meus curtos e já longos dias de existencia. Nas dobras da bandeira gloriosa do grande apostolo, é que comecei a espalhar, com este calor e esta vehemencia que me caracterizam, os ideaes de regeneração e de liberdade, pois, como elle, quero uma Patria livre, grande, democratica e verdadeiramente republicana. Estou, pois, falando como amigo. O mal do nosso pais é que os homens publicos se cercam, commummente, de aduladores e aulicos, os quaes nunca dizem a verdade, com receio de melindrar aos seus amos politicos. Eu, porém, que não tenho senhores e nem tenho a quem adular, pois nasci, quando já não existiam escravos, costumo sempre dizer o que a minha consciencia dita.
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19 de maio de 1928

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19 de maio de 1928, no “Diario de Noticias”:
Lampeão novamente consegue escapar depois de tiroteio com as forças policiaes
Lampeão!

Novamente a policia trava tiroteio om o celebre bandido, mas... o grupo foge
RECIFE, 18 – Argos – O chefe de policia recebeu o seguinte telegramma:
Água Branca – Communico a vocencia que o sargento Zé Grande cercou o grupo Lampeão neste municipio, sustentando vivo e cerrado tiroteio, resultando na morte de dois individuos, fugindo o grupo em completa debanda, deixando fuzis, munições, embornaes. cpmchas, cabaças, etc.
A força verificou depois que os individuos mortos eram coiteiros que foram levar viveres ao grupo e que alli se encontraram na mesma ocasião do tiroteio.
A força, apezar da galhardia com que se bateu, não conseguiu exito melhor porque Lampeão e seus apaniguados presentiram a approximação da mesma, preparando a resistencia, havendo dado as primeiras descargas.
O sargento continúa na pista dos bandidos, havendo seguido tambem em diligencia o capitão Ferreira, tomando providencias para que todas as forças se aproximassem na direcção do grupo. – Major Lucena, commandante das forças alagoanas
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29 dezembro 2011

14 de maio de 1928 - Antonio Souza

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14 de maio de 1928, no “A Tarde”:
O BANDO
de Antonio Souza

Uma força volante do Ceará destroçou–o em Araripe
De conformidade com as bases do convenio policial, os Estados limitrophes ao da Bahia não dão treguas ao bando do destemido cangaceiro Antonio Souza, que ha dias vem revolucionando o sertão bahiano.
Hontem, o dr. Madureira de Pinho, secretario da Policia, recebeu do seu collega do Ceará o seguinte telegramma:
“Acaba de ser destroçado na serra do Araripe o grupo do bandido Antonio Souza, pela volante do ten. Aristides Rosa, que continua perseguindo os bandoleiros. Morreu na luta o bandido José Pereira, sendo capturado o criminoso Firmino e apprehendidos tres animaes.
Telegraphei nosso prezado collega de Recife, pedindo concurso companhia volante tenente Arindo, empenhada como se acha esta chefia em auxiliar o exterminio do banditismo. Saudações cordiaes. – (a) Paulo Pessoa, chefe de policia.”
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12 de maio de 1928

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12 de maio de 1928, no “Diario de Noticias”:
Lampeão!
Reduzido o grupo a 9 homens, o sertão pernambucano respira agora a liberdade
RECIFE, 11 – Argos – Commerciantes, autoridades e conselheiros de Villabella telegrapharam á imprensa, dizendo que realmente o sertão respira, hoje, livremente, por estar o grupo de Lampeão reduzido apenas a nove homens e internado nas caatingas, fugindo de todos e de tudo.
O povo sertanejo dá graças a Deus por haver o sr. Estacio Coimbra, inspirado nos mais nobres sentimentos, promovido a cruzada do saneamento moral do sertão, em boa hora confiada ao major Theophanes Torres, cuja actuação proveitosa e efficiente na campanha contra o banditismo só desconhecem inimigos pessoaes.
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28 dezembro 2011

Alagoas desarmada por Costa Rego


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13 de abril de 1928, no “A Tarde”:
O “TRUC” DE UM GOVERNADOR
Como o sr. Costa Rego desarmou o sertão de Alagoas
RIO, 12 (A TARDE) – Numa roda de amigos em que se achava conhecida figura, provinda de Maceió, ouvi a seguinte interessante narrativa:
Empenhado em acabar com o banditismo no Estado de Alagoas, o governador Costa Rego architetou e poz em pratica uma medida original.
Allegando receios de reacção contra o seu governo, o sr. Costa Rego teria dirigido aos chefes politicos do interior, dos quaes alguns eram protectores conhecidos de cangaceiros, uma circular alludindo a essas suspeitas e pedindo o apoio a cada umd elles, apoio que consistiria em reunir o maior numero possivel de homens destemidos, embarcando–os para a capital, para onde deveriam vir logo armados e municiados, trazendo a maior quantidade de armas e munições que fosse possivel arrecadar.
Á vista dessa circular, e querendo dar arrhas de maior dedicalão ao governo, cada umd esses chefes entrou a empregar os maiores esforços, na demonstração da sua força.
Dahi resultou que legiões e legiões de cangaceiros vieram para a capital, promptos para combate. A cidade, pode dizer–se, ficou invadida por esses maus elementos.
Á proporção que iam chegando, o sr. Costa Rego ia arranchando esses cangaceiros nos quarteis e em casas que para esse fim destinou. E lá um bello dia, depois de pagar pelo governo as despezas da sua estada, deu passagens de volta a todos elles, fazendo–os portadores de cartas para os alludidos chefes politicos, nas quaes lhes agradecia o concurso prestado, que já não era, porém, preciso por haver passado a temerosa crise.
Quando, porém, esses chefes reclamaram as armas que tinham vindo, o sr. Costa Rego, então, lhes declarou, em nome do governo, que não havia necessidade de gente armada no interior do Estado.

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O Cangaceiro Campinas - Matérias


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7 de janeiro de 1928, no “A Tarde”:
TERIA DESERTADO MESMO DO BANDO SINISTRO?
UM ASSECLA DE LAMPEÃO, PRESO EM PARIPIRANGA E TRAZIDO Á CAPITAL

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A horda de bandidos, chefiada por Virgolino Ferreira, continua a infestar a zona sertaneja que o temivel facinora escolheu para campo de suas operações.
Agora mesmo o bando sinistro se encontra no visinho Estado de Sergipe.
Compõe–se de 23 caibras chefiados pelo terrivel scelerado: 20 homens e 3 mulheres, bem armados e municiados.
Ultimamente um dos asseclas do grupo, o bandoleiro José Soares Santos vulgo “Campinas” entendeu de abandonar os companheiros de cangaço, fugindo – porque só fugindo podia desertar – com destino a Paripiranga, onde descoberto por agentes da Força Publica, foi preso e conduzido para esta capital. O bandido que se acha recolhido ao xadrez da Praça 13 de Maio, á disposição do chefe de Policia, declarou que fôra forçado, sob ameaça de morte, a seguir o grupo do faccinora deixando–os assum que poude fazel–o. Diz–se analphabeto e haver nascido no municipio de Paripiranga, antigo Patrocinio do Coité.

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8 de janeiro de 1928, no “A Tarde”:
O CANGAÇO NO NORDESTE
“Campinas” diz–se Innocente – Mulheres temiveis acompanham os bandidos
Noticiamos hontem a chegada a esta capital do bandido José Soares Santos vulgo Campinas um dos componentes do grupo de facinoras chefiados por “Lampeão.” O caibra, que se acha recolhido ao xadrez da Piedade, nega haver praticado qualquer atrocidade no decorrer da sua malsinada carreira de bandoleiro do nordeste. É o que dizem todos elles de resto, ao cahirem nas malhas da policia. “Campinas” diz até que foi obrigado, sob ameaça d emorte, a acompanhar o grupo de malfeitores,,, Só por medo de ser sangrado por Lampeão é que resolveu a acompanhal–o.
As tres mulheres que integram o bando sinistro, segundo affirma José Soares dos Santos, são habeis amazonas e manejam o rifle com incrivel destreza. Algumas são tão crueis quanto os homens. Tomam parte nos assaltos e combates ao lado dos bandoleiros, – mostram–se tão destemerosas como elles.

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