31 outubro 2023

Anésia... das "maneiras humildes"

Imagem retificada a partir da original publicada no jornal A Tarde, 25/10/1916
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Anésia? Era Anesia de Adelaide Araújo, dita Anesia Cauassú, atualmente grafada Anésia Cauaçu. Denunciados, aprisionados, ela e seu marido, Affonso, por pouco não foram mortos. Naquele momento, pendia este aprisionado, tendo sido ela liberada, assim como sua mãe, duas jovenzinhas, provavelmente, suas irmãs, e duas menininhas, provavelmente suas sobrinhas.

Em um quadro de intensa, violenta, brutal repressão a seus parentes e aliados, de tão inofensiva, mais que poupada, era livre na própria Jequié. Assim, Anesia foi localizada acompanhada de sua filhinha de 5 anos de idade. Foi esta mulher cuja imagem surgiu no jornal baiano “A Tarde”, em 25 de outubro de 1916, acompanhada de sua descrição. “Mulher alta, delgada, olhos azuis, bons dentes, cabellos castanhos, faces encovadas, maneiras humildes”.

Entrevistada, contou, com abundantes detalhes as desventuras de sua gente, publicadas em sequência por alguns dias. Perguntada sobre ter recebido maus tratos, negou.  

Não surgiu qualquer registro jornalístico, relato policial, testemunho da época afirmando, indicando, sugerindo haver Anesia cometido qualquer crime. Porém, a imaginação de alguns fabricou, a partir de seu nome e de documentação nenhuma, uma figura fantástica. Líder de bando. Exímia no gatilho. Primeira mulher a montar cavalo de frente. Até, pasmemos, capoeirista.

Desenhos passaram a mostrar uma mulher de traços firmes, vestes coladas, no mais das vezes, sensuais, chapéus “acangaceirados”. Comprovação? Nenhuma. Documentação? Para que? Diegeses dispensam tais amarras. Somente são necessários um fantasista para criar e alguns energúmenos para desenvolver e divulgar mais uma mentira. Por mais infundada que seja sempre haverá palco e plateia. Afinal, que atratividade teria a Anesia real, de "maneuras humildes"?

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