domingo, 30 de setembro de 2012

25 de janeiro de 1927, no “O Combate”

25 de janeiro de 1927, no “O Combate”:
Papeis invertidos
Lampeão não depredou Limoeiro... Mas a força parahybana quasi arrasa tudo!
Uma sensaccional entrevista com o prefeito daquella cidade
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FORTALEZA, 25 [Agencia Brasileira – Pelo Submarino] – O prefeito de Limoeiro agora chegado do interior, tem sido alvo das attenções dos reporters e dos photographos avidos de detalhes sobre a invasão dessa cidade pelo bando de Lampeão.
Depois de vaias recusas resolveu o mesmo falar aos jornaes e da forma seguinte:
Reporter: – Poderia descrever a acção de Lampeão em Limoeiro?
Prefeito: – Com muito gosto. Este bandido esteve, de facto, em Limoeiro, onde passou um dia e uma noite, esta numa fazenda afastada umas tres legoas da cidade.
Manda a justiça que se diga não ter elle nem qualquer dos seus homens praticado a menor depredação, nem desrespeitado a quem quer que fosse.
Excessos mesmos, de quem bebe cachaça, e que é uma coisa natural nessas gentes, elles não praticaram alli,
Reporter: – Mas, dizem, entraram na cidade ovacionando as autoridades.
Prefeito: – É certo que invadiram aquella localidade dando hurralis ás autoridades, como tambem é veridico ter sido a sua primeira ordem: aqui não se pega naquilo que não for nosso.
Reporter: - Constou aqui que o senhor teria estabelecido perfeita cordialidade com Lampeão.
Prefeito: - Lampeão, ao penetrar na cidade, mandou me solicitar uma audiencia especial, e, coisa interessante marcava, elle proprio, logar e hora para a realisar.
Em virtude do mêdo reinante, e procurando poupar o municipio ao saque, accedi em ter contacto com o cangaceiro. Fui muito bem recebido.
A principio, um certo respeito, depois fui tratado com muita gentileza lá ao modo do facinora, que não tardou a se acamaradar de uma maneira petulante. Mais ou menos senhor da scena, jogou com o seu intento: - precisava de dinheiro e queria o. Recursei seccamente o pedido. Elle insistiu, tendo nova recusa de minha parte. Tornou a insistir, obrigando me a dizer lhe que eu não tinha dinheiro e que o municipio tambem não tinha um real. Voltou-se para o seu ajudante de campo, um tal Sabino e disse:
- “veja só! a gente pede, torna a pedir de bons modos e recusam, quando se rouba gritam...”
A ameaça era grave e, a despeito de me pegar de surpreza não fez com que perdesse a minha presença de espirito. Depois de dar um passeio vagaroso pela quadra onde estavamos os tres pergunta me:
- “onde anda o Moysés”
“O major Moysés, respondi, não estava em Limoeiro, no momento”
Novo passeio terminado com a seguinte phrase: - Não estou satisfeito, por que não gosto de vir ao encontro de alguem ou de alguma coisa para se rmal succedido. Se encontrasse o Moysés teria que ajustar com elle umas contas velha...” Depois de assim monologar despediu-se dizendo me que pensasse sobre o dinheiro.
Mais tarde encontram-nos de novo.
Eu ia com o padre Guedes, e Lampeão com o Sabino. Lampeão abordou me de novo. Exigiu dez contos de réis. Tornei a recusar, mas notei caracteristico movimento contrafeito de Lampeão, que olhou para Sabino. Offereci-lhe dois contos, de minhas economias.
Neste momento o “ajudante de campo” interrompeu a conversação dizendo:
“Ué... dois contos... isso, moço, não é dinheiro p’ra nós...”
Tinha um ar de mofo e deboche, despido de qualquer affectação e midos de seu indifferentismo por quantias pequenas.
O padre Guedes compreendeu tudo e voltando para Sabino bateu-lhe no hombro, num gesto de camaradagem e disse-lhe: - “É pouco, mais o que se pode dar, antes pouco que nada.”
Lampeão riu-se e reolveu acceitar os dois contos de reis.
Não os trazia commigo, mas fiquei de dal-os mais tarde. Ja estavamos partindo quando o cangaceiro falou:
- “Dois contos, mas numa condição: precisamos de balas e vocês nol-as darão.” Retruquei logo: deste artigo não ha aqui na praça. Caso se convença da sua existencia me avise para que possa intervir no sentido de ser satisfeito seu pedido, e – com todo geito, prosegue o prefeito o ia evando o bandido. A minha prudencia chegava mesmo a me causar impressão. Já tinhamos andado quando Lampeão voltando se disse
– “Olhem: podem avisar por ahi que me responsabilisarei por tudo que tomarem os meus homens, salvo bebidas, pois, não as reputo genero de primeira necessidade.
Reporter: - Quando se foram os bandidos.
Prefeito: - Muita esperança tivemos de que mal recebesse os dois contos partir-se, mas dali foram aalmoçar a contento, todos elles, e depois, correram ás casas commerciaes adquirindo do melhor e pagando tudo por altos preços, sem regatearem.
Á tarde desse dia Lampeão deu donativo para a igreja e em frente desta, cercado de toda a garotada local, deu a seguinte ordem: - “Despejem esses bolsos de nickels e pratas aqui. Vocês não são burros de carga!”
De facto, sem a menor repulsa, todos despejaram  seus bolsos que estavam abarrotados de prata e nickel. Em seguida passou a fazer – galinha gorda – com a meninada. Emquanto esta luctava e se esmurrava, Lampeão e os seus riam-se á vontade divertindo-se a valer, com os meninos. Foi tanto dinheiro jogado ás creanças a despeito de seu grande numero a que menos logrou apanhar pratas colhei dez mil réis. Antes disso já havia dado esmolas aos cégos e aleijados, de cedulas de dez mil réis.

Lampeão e bando em Limoeiro

Foi, no adro da igreja que fui ter com Lampeão para lhe entregar o dinheiro. Recebeu-o e ia guardal-o quando adverti:
“É conveniente contar.”
Retrucou:
- “Qual nada. Não costumo tratar com que não seja serio”.
Creia que me revoltava tudo aquillo, mas, soffria calado as affrontas para poupar a cidade ao saque.
Guardando o dinheiro disse ainda:
“Confio no senhor. Em seguida trato a bolsa de couro, a tira collo.
Com dificuldade a abriu e não menor foi a para conseguir que o dinheiro coubesse lá dentro, pois a mesma estava transbordando de cedulas graudas. Já declinava o dia. Todos nós convenceramos que, ao receber dinheiro elle levantasse acampamento. Qual nada, e travo ia continuar, para mim e todos os dalli.
De repente disse-me.
– Preciso falar para Aracaty, á noite é preciso que o telegraphista não avise coisa alguma. Quero ir consigo.
A hora aprazada lá estava Lampeão na estação telegraphica – Falou: o direto para Aracaty, ordenou para o telegraphista:
- “Repita a ligação para Russas.
- Não posso, pois não tenho linha livre...
- Reputa já disse...
E como o telegraphista tentasse subtilmente isolar o apparelho.
Não desligue o apparelho... quero falar com Russas.
Foi feita, afinal, a ligação, e, veio se a saber estarem alli forças da Parahyba. Cheio de raiva, mandou que pedisse o rapaz do telegrapho confirmação da noticia. Esta veio. Sem que ninguem esperasse falou alto:
- “Vou defender esta cidade”!
E incontinente passou a dar ordens a Sabino. Foram expedidas patrulhas, distribuidos piquetes nas estradas e atalhos da região. Tudo aquillo impressionava a todos, pois o homem se revelava tão conhecedor do lugar como nós mesmos.
Antes dessas ordens voltou-se para mim e disse:
“Bóta tudo p’ra fora. Aqui só fica eu, voce e aquelle senhor.
Referia-se ao telegraphista. Não precisava pedir nem dar ordens. Todos comprehenderam pela entonação da voz do bandido que elle estava fulo de raiva.
A meia hora que se seguiu foi para mim de angustias. Por todos os meios convencer o faccinora que elle não devia insistir em ficar alli. Mostrei-lhe que só quem tinha a perder era a população. Alleguei o modo por que tinha sentido tratar. Emfim depois de uma grande discussão acabei convencendo o homem que devia partir.
Lampeão chamou novamente Sabino transmittiu lhe contra-ordem, a qual foi recebida com contrariedade da parte deste.
Exigia, porem, que lhe indicassemos uma fazenda onde pudesse pernoitar com os seus homem, garantindo elles, que não sofreriam nem a fazenda nem os seus moradores. Era questão de palavra.
Indicaca a fazenda, partir Lampeão seguido de seus companheiros.
Era um pesadello que parecia passar.
Reporter: - Tinha, mesmo, força em Russas?
- Prefeito: - Sim tinha. Mas, antes não tivesse esta sob o commando de tenente parahybano. Quelé deu entrada no outro dia pela manhã, em Limoeiro onde praticaram todas as sortes de desatinos.
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10 de agosto de 1927, no “Diario da Bahia”

10 de agosto de 1927, no “Diario da Bahia”:
A HORDA SINISTRA
A organização do bando de Lampeão
O ataque a Mossoró
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Sabendo recentemente chegado do nordeste brasileiro, zona infestada pelos bandoleiros do famigerado Lampeão, o academico Raul Fernandes, filho do prefeito da cidade de Mossoró, fomos á sua residência, á Rua do Tijolo 21, no sentido de obtermos esclarecimentos sobre o recente assalto áquella próspera cidade pelos bandidos da trinca sinistra Lampeão – Sabino – Massilon, ora colligados para a consecução funesta do devastamento e inquietação do nordeste brasileiro.
Apresentados pelo seu collega Aurelino Navarro, recebeu–nos o academico Raul Fernandes, amavelmente, e para logo se dispos a nos prestar todos os esclarecimentos precisos, offertando–nos tambem farta documentação photographica do que foi o assalto a Mossoró.
– Que pode nos dizer do assalto a Mossoró e da organização do bando de Virgulino?
– Desde que esta hora de vandalos vagueia pelos sertões nordestinos, disse o nosso entrevistado, é esta uma das coisas que mais desperta o interesse publico: saber da organização do bando, de como vivem e qual o seu ideal.
Durante a minha recente viajem de Natal para este porto, faziam–me a bordo, repetidamente estas perguntas.
Acho–me felizmente apparelhado para respondel–as, uma vez que conversei largamente com um dos bandoleiros, Jararáca, mortalmente ferido no ataqu a Mossoró.
A organização do bando é a mesma das sociedades primitivas. O chefe, capitão Virgulino, occupa este lugar porque (declaração de Jararáca), é o mais velho do grupo, o que tem mais dinheiro, o que melhor atira e o que “tem melhor tino no combate”.
– Quaes os auxiliares de Lampeão?
– O seu lugar tenente é o Sabino Leite, seguido por Massilon, ambos 1°s Tenentes no bando. A seguir vêm Jararáca, (hoje morto), Colchete, (tambem morto), Az de ouro, Chá preto, Candieiro, Pinga–fôgo etc. Alguns destes appellidos de guerra partem de superstições como o de “Rio preto”, nome de um celebre negro da Parahyba, malfeitor consummado e que todos acreditam piamente, “bala não lhe entrar no couro”.
– Que nos diz do physico destes homens e do seu gráo de ferocidade?
– Todos são homens validos, apresentando os caracteres de audacia e menosprezo pela vida, que a penna fulgurante de Euclydes da Cunha tão bem plasmou na sua “Troya sertaneja” immortal.
Verdadeiramente selvagens, na sua marcha pelos sertões postam–se como acabados cannibaes na desvastação pavorosa de tudo que lhes entrave o passo.
– Qual a impressão que faz do bando o povo dos sertões?
– No nordeste a palavra Lampeão causa panico é pronunciada entre demonstrações de odio e pavor. Durante os assaltos praticam os bandidos toda sorte de atrocidades. Matam, roubam, saqueiam, devastam: não respeitam as donzellas e até creanças têm sido sacrificadas.
Os soldados que lhes cáem nas mãos são sangrados impiedosamente.


– Como procedem para “requisições” de dinheiro?
Só aos chefes assiste o direito fazer taes requisições, e uma particularidade interessante dos combates é a seguinte.
Toda vez que tomba morto um dos bandidos é destacado um companheiro para tirar–lhe as armas. Foi assim que foi ferido Jararáca, quando vier, descoberto, ousadamente tirar as armas do seu camarada Colchete, morto durante o assalto.
– E a disciplina é solida entre os bandidos?
A não ser nos momentos do perigo não obedecem aos seus chefes, fazendo cada qual por si nas occasiões de saque e de pilhagem, quando praticam, como afiancei ha pouco, toda sorte de atrocidades.
Ao que nos consta, os bandidos usam um fusil mauser modelo 1908, arma privativa do exercito!
– Perfeitamente; usam deste typo de fusil, punhal longo, bornaes, e cartucheiras com capacidade para 100 balas. A roupa em geral é kaki; chapeu vistoso e alpercatas. São muito vaidosos dos seus trajes e quasi que o luxo das vestes é uma caracteristica da posição elevada que cada bandido occupa no grupo.


Jararáca quando foi preso trazia ricas alpercatas e meias de seda. Contou que fôra reservista do exercito e telegraphista por muitos annos.
– Sabe se os bandidos têm signaes que os orientem nos combates?
Sim, têm um corneteiro e usam uma especie de codigo, combinação de tiros repetidos ou espaçados que lhes indicam posição, proximidade do inimigo, etc. Quando em desncanço costumam contar suas façanhas e tambem dançar e canta o ccôco “Mulher rendeira”, ao som de um realejo cujo côro é o seguinte:
Ê mulhé rendeira
Ê mulhé rendá,
A volta de Lampeão
Crua é p’ra se daná...”
– A propósito, é verdade que padre Cicero protege Lampeão?
– É sabido e notorio isso e Jararáca, em seu depoimento, disse que quando o grupo opera no Ceará, abriga–se nas fazendas dos coroneis Souto e Ferraz e quando está no Pagehú seu refugio é a caatinga.
– Mas afinal qual o objectivo de Lampeão, qual o seu “ideal”?
– Narrou Jararáca que Lampeão declarava sempre que o dinheiro que adquiria era para comprar os officiaes das policias que o eprseguem e tambem pretende fazer a sua independencia, indo residir em Goyas. Alguns dos bandidos adheriram ao grupo por satisfazerem vinganças, outros por decidida propensão para o crime.
– E agora, quanto ao ataque a Mossoró?
– Minha cidade natal soffreu dias terriveis de angustiosa inquietação desde que recebeu o prefeito as cartas ameaçadoras do bandido exigindo 400 contos e avisando do proximo assalto. A cidade preparou–se como poude para a defesa, armando–se a população civil, retirando–se as familias e levantando–se trincheiras, como documentam as photogrphias que apresento. Chegou o dia do assalto e o rezultado foi a fuga dos bandoleiros abandonando um morto e um ferido, ficando varios delles perdidos no matto como soubemos depois.
– Soubemos que foi energica e efficaz, heroica mesmo a acção do Cel. Rodolpho Fernandes?!
– Sou suspeito para falar da acção de meu pae, ma so povo de Mossoró é testemunha de que elle soube cumprir o seu dever.
Estavamos satisfeitissimos com as declarações do jovem Raul Fernandes e demos por terminada a nossa entrevista, agradecendo–lhe a bôa vontade com que nos ouviu.
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A titulo de curiosidade reproduzimos aqui o “ultimatum” de Lampeão ao prefeito de Mossoró, e a resposta deste:
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Cel. Rodolpho
Estando eu até aqui pretendo é dinheiro. Já foi um aviso ahi para o senhor, se por acauzo resolver mi a mandar me a importancia que nós pede Eu envito de Entrada ahí, porem não viado, esta importancia eu entrarei até ahi penso que Adeus querer eu entro e vai aver muito estrago, po isto se vir o dinheiro eu não entro ahi mais mande resposta logo.
Capm. Lampeão.
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Virgolino Lampeão
Recebi o seu bilhete e respondo–lhe dizendo que não tenho a importancia que pede e nem tambem o Commercio O Banco está fechado tendo os funccionarios se retirado daqui. Estamos dispostos acarretar com tudo o que o Sr. queira fazer contra nós. A cidade acha se firmemente inabalavel na sua defesa confiando na mesma.
Rodolpho Fernandes
Prefeito
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