quarta-feira, 14 de março de 2012

Observações de João de Sousa Lima sobre o livro "Maria Bonita" de Antonio Amaury Corrêa de Araújo

Antonio Amaury Correa de Araújo e João de Souza Lima - Imagem do blog http://culturacrato.blogspot.com.
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Um dos grandes fundamentos do Conhecimento Científico é o submetimento a um salutar escrutínio público.
Neste são referendadas, corroboradas, rejeitadas, corrigidas as colocações de publicações.
Neste contexto, as observações de João de Sousa Lima sobre o livro "Maria Bonita", do estudioso e autor referencial Antonio Amaury Corrêa de Araújo vêem à luz para somar.
Desta maneira, aqui reproduzimos as, como sempre, interessantes e pertinentes observações deste também estudioso e referencial autor lançadas no site:
http://www.joaodesousalima.com/2012/03/antonio-amaury-e-algumas-consideracoes.html
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"Considerações sobre o livro Maria Bonita de Antonio Amaury."

O livro Maria Bonita de autoria de Antonio Amaury Correa de Araújo, lançado pela Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, coleção Gente da Bahia, n° 17, 1ª edição, Salvador, 2011, precisa em uma segunda edição passar por uma correção quanto algumas informações.
Na introdução, pagina 19, linha quatro, Amaury escreve “Zé de Neném” e o certo é “Zé de Nenê”. Seguindo na mesma linha Amaury diz que Maria abandonou o marido pra seguir Lampião e o certo era que eles estavam separados e quando Maria seguiu para o cangaço ela saiu da casa da avó que residia no povoado Rio do Sal, em Paulo Afonso, Bahia. Ainda no mesmo capitulo Amaury diz que o apelido de Maria Bonita só ficou conhecido próximo do fim do cangaço e o jornal “tal do dia tal”, porém 3 anos antes já cita esse apelido.
Na pagina 20 Amaury faz um análise equivocada quanto à entrada das mulheres no cangaço dizendo que elas entraram nos grupos em busca de liberdade, procurando sua independência e a verdade é que foram vários os motivos que levaram as mulheres a serem cangaceiras, algumas foram raptadas como foi o caso de Dadá de Corisco; A cangaceira Dulce foi contra sua vontade sendo trocada por correntes e anéis de ouro, troca realizada entre seu cunhado e o cangaceiro Criança, então não podemos generalizar que as mulheres foram para o cangaço em busca de uma aparente liberdade, essa é uma informação precipitada para a compreensão aproximada do que foi o cangaço.
Na página 26 Amaury fala que a cangaceira Antonia Maria de Jesus vivia com Gabriel Lima (Baliza) e na verdade o nome de Baliza é Venceslau Xavier, ele era irmão de Ferrugem (Martins Xavier) e de Lilí (Maria Xavier), eram filhos de Francisco Xavier e Ana Xavier, nascidos no povoado Juá, Paulo Afonso, Bahia.
Na pagina 41 o autor fala que Lampião e seu bando jamais agiram na região do agreste de Pernambuco e eu pergunto: Será que ele conhece geograficamente onde fica Serrinha de Catimbau, próximo a Garanhuns, lugar onde Maria Bonita foi baleada?
Na página 44 Amaury diz que Maria Bonita contribuiu para a independência do sexo frágil, essa é uma afirmação muito fácil de ser escrita e difícil de ser analisada e entendida, para compreendermos algumas questões sociais é necessário nos remetermos às questões do gênero, nesse sentido mulheres e homens assumem como sujeitos coletivos papéis semelhantes na trajetória do cangaço. Pode-se dizer que as mulheres no cangaço buscaram outros caminhos, impuseram identidade própria, criaram estratégias de sobrevivência, ao menos se sabe que o cangaço e os homens não foram mais os mesmos com a presença das mulheres, nem as mulheres foram mais as mesmas, não por causa da condição do feminino, mas pela condição humana do Ser da MULHER.
Na página 46 Amaury diz que Maria Bonita quando chegou o mundo já encontrou irmã e irmão e a verdade é que Maria foi a segunda gravidez de Dona Déa e quando ela nasceu só tinha a primogênita Benedita Gomes de Oliveira, então o primeiro filho não foi o Zé de Déa como vem nas linhas seguintes.
Na pagina 47 Amaury faz uma relação falando dos irmãos de Maria Bonita e nessa relação faltou o nome de Isaías Gomes de Oliveira, o mais novo irmão da Rainha do Cangaço.
Entre as paginas 50 e 51 Amaury falando sobre o encontro entre Lampião e Maria Bonita, ele diz que eles se conheceram depois da terceira visita do cangaceiro a Malhada da Caiçara e a verdade é na primeira vez que Lampião esteve lá levado pelo senhor Odilon Café, tio de Maria bonita e coiteiro da vizinha fazenda Sítio do Tará, Lampião já encontrou com Maria e ela estava separada do marido há uns 15 dias.
Na pagina 54 Amaury diz que na época da paquera entre Lampião e Maria a futura cangaceira respondendo a Lampião sobre os argumentos dele em não poder levá-la para o cangaço pelas dificuldades de sobrevivência ela teria respondido que montava tão como qualquer cabra do grupo. Amaury continua o texto dizendo que os cangaceiros nesse tempo andavam a cavalos e muares.
Na verdade é pouco provável que essa conversa tenha existido por que Lampião quando esteve na residência dos pais de Maria, acompanhado de Odilon Café eles estavam sem montarias, qualquer dúvida é só checar com as duas filhas de Odilon que ainda residem no povoado Sitio do Tará e que são remanescentes daquela época, por sinal elas chamam-se Olindina Café e Maria Café.
Na pagina 74 Amaury narrando o combate da Lagoa do Mel diz que dois soldados sobreviventes ao massacre foram mortos por sertanejos e que depois entraram para o bando de Lampião e a verdade é que dois desses soldados que fugiram ao cerco encontraram com os cangaceiros Gato, Catingueira e Mané Revoltoso e os cangaceiros o mataram; outro soldado conseguiu chegar até o povoado Salgadinho, justamente na casa da irmã da cangaceira Lídia, de Zé Baiano. O soldado foi preso por João Garrafinha, Nicó, Manú, Dé e Lino de Zezé, sendo morto por eles e enterrado na Serra do Padre; Lino de Zezé pegou aas armas do soldado e foi se apresentar a Lampião e passou a ser o cangaceiro Pancada.
Quando Amaury fala sobre a morte de Zé Pretinho o texto torna-se uma grande confusão, dizendo que ele foi preso na casa de um dos filhos de Generosa e que foi amarrado nos caibros da casa de Virgília, irmã de Mané Veio; Entre a casa de Virgília e Generosa existe uns 20 quilômetros de distância. Na verdade Zé Pretinho foi preso por Douradinho nas proximidades do povoado Arrasta-Pé e passou com ele todo amarrado, montado em um burro, na casa da cangaceira Durvinha. Dona Santina, mãe de Durvinha, tentou dar um copo com leite a Zé Pretinho, o Douradinho quebrou o copo jogando-o na calçada da casa.
Zé Pretinho foi morto na frente da casa de Generosa, amarrado em um pé de barriguda, onde fizeram “tiro ao alvo”, depois de morto foi esquartejado e deixado no lugar; Generosa mandou enterrá-lo lá mesmo, existindo ainda no lugar o túmulo de pedras e uma cruz de ferro que marcam o lugar da tragédia.
Na página 128 Amaury narra um romance acontecido entre João Maria de Carvalho e Maria Bonita, romance esse só afirmado por um sobrinho de João Maria que reside em Jeremoabo e com fama de mentiroso. Os depoimentos carecem de comprovações, de estudos mais detalhados, de análises e confrontações, esse é um princípio básico para a vida do pesquisador, do historiador, do autor de livros históricos.
Na página 136 Amaury faz grande confusão deixando o assunto sobre Maria Bonita e entrando na morte do cangaceiro Sabiá, sendo uma história totalmente equivocada, dizendo que Sabiá foi morto por uma volante e Sabiá, todos sabem, foi morto pelo próprio Lampião, em Paulo Afonso, no povoado Lagoa do Rancho, por ter estuprado Rita, uma moça com 15 anos de idade e filha dos coiteiros que estavam fazendo o almoço dos cangaceiros nesse dia.
Na página 139 Amaury se referindo a cangaceira Aristeia sendo do grupo de Moreno diz que Moreno era paraibano e a verdade é que Moreno era pernambucano da cidade de Tacaratu, que fica muitos quilômetros do estado paraibano.
Na pagina 140 Amaury diz que Aristeia não conhecia nenhum dos cangaceiros que foram mortos na Grota do Angico e a verdade é que Aristeia conhecia o Quinta- Feira (Jorge Horácio), foram vizinhos e ainda tinham laços familiares, além de que o Jorge Horácio foi um famoso vaqueiro na região e admirados por todos.
Na página 142 Amaury diz que o cangaceiro Volta Seca andava com uma chibata e uma palmatória para ser castigado pelos próprios companheiros quando cometesse algum erro em sua vida. Essa é uma afirmação difícil de acreditar e que nunca ouvi de nenhum dos meus entrevistados, inclusive dos filhos de Adão e Roxo, os homens que prenderam Volta Seca que estão vivos, residindo no Lagoa Do Onça, local onde prenderam o cangaceiro, são remanescentes da história e afirmam que nos bornais do cangaceiro, revistados por seus pais, não foram encontrados esses materiais citados por Amaury. Quem em sua sã consciência gosta de ser punido e tão severamente, principalmente estando no meio de pessoas que cometiam tantas falhas, insubordinações e erros?
Na página 165 Amaury incorre novamente no erro de dizer que Zé de Déa era o irmão mais velho de Maria e novamente eu digo que Benedita Gomes de Oliveira foi a primeira gestação do casal Zé de Felipe e dona Déa.
Na página 199 Amaury diz que a Malhada da Caiçara na época do cangaço pertencia ao município de Jeremoabo e o certo é que na época do cangaço pertencia à Santo Antonio da Glória, cidade de onde foi emancipada a cidade de Paulo Afonso, em 28 de julho de 1958.
Na primeira página da galeria de fotos a primeira foto tem por crédito o nome Luiz Ru e a verdade é que essa foto é do meu arquivo pessoal e me foi presenteada pela amiga Glória Lira, eu possuo o original para comprovações.
Na página 260 as fotos de Zé de Felipe e dona Déa também são de meu acervo, assim como da página 261, de Zé de Déa, ainda as fotos da página 262 de Joana, Benedita, Francisca e Ozeias são todas do meu acervo, inclusive lançadas em primeiro plano no livro biográfico de minha autoria: A Trajetória Guerreira de Maria Bonita, A Rainha do Cangaço.
Paulo Afonso, 03 de março de 2012.
João de Sousa Lima
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João de Sousa Lima é Pesquisador e Historiador, Membro da ALPA- Academia de Letras de Paulo Afonso. Escritor, Pesquisador, autor de 09 livros. membro da Academia de Letras de Paulo Afonso e da SBEC- Sociedade Brasileira de estudos do Cangaço.
telefones para contato: 75-8807-4138 9101-2501
email: joaoarquivo44@bol.com.br joao.sousalima@bol.com.br
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Um comentário:

  1. Sou também escritor. Porém autuando não em relação ao Cangaço. Uma coisa que sinto falta, e muita mesmo, é um trabalho como o que João de Souza Lima realizou sobre o trabalho de Antonio Amaury Corrêa de Araújo.
    Quando meus textos passam por uma seqüência (Sim... ainda uso tremas) de elogios e tapinhas nas costas, nada é acrescentado.
    Quando encontro alguém que aponta prováveis ou hipotéticos erros... percebi ser isto um indimensionável tesouro.
    Meu livro "História Geológica da Bahia", por exemplo, singrou por entidades e mãos de muitos super-especialistas, sendo ultra-elogiado... até cair nas mãos de um camarada que listou nele 50 (cinqüenta) "imbecilidades"... Levei um susto. Voltei ao livro e, para minha surpresa, constatei estar o crítico certo. Tratei-o com todo o respeito e só me satisfiz quando, após três reescritas e encaminhamento ao citado revisor, ele não encontrou mais qualquer erro.
    É o "escrutínio científico"... Nesta via, parabéns ao autor Antonio Amaury Corrêa de Araújo pela vida de trabalho fecundo... e ao também fecundo João de Souza Lima por indicação das suas proposições sobre o trabalho daquele.

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